quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mário Ferreira dos Santos - Teoria do Conhecimento


Gnoseologia e Criteriologia

Incluíam os gregos, no termo episteme, todo saber e toda ciência, não só o conhecimento filosófico, como ainda o artístico, o técnico etc. Posteriormente, distinguiram o saber empírico (empeireia), o técnico (techne e logismos), e o saber vulgar, a doxa.

Dessa palavra episteme construímos o termo Epistemologia, que é a disciplina que estuda teoricamente o saber científico, justificado pela filosofia, verdadeira lógica do saber científico. Disciplina nova, ainda em formação, é um verdadeiro ponto de ligação entre a filosofia e a ciência.

A ciência, que ora nos interessa, é a gnoseologia ou Teoria do Conhecimento, pois é um saber teórico do conhecimento, ponto de partida para o estudo da Metafísica, em seus diversos aspectos.

Historicamente, nem na Antiguidade grega nem na chamada Idade Média, nem em nossa cultura, há propriamente uma disciplina autônoma que se possa considerar como sendo a gnoseologia, embora os temas gnoseológicos estivessem presentes desde os gregos, sobretudo no período crítico dos sofistas, e em todos os momentos dramáticos da filosofia. Na filosofia hindu, encontramos, em correspondência com a nossa, alguns exemplos de aguda e profunda análise dos temas gnoseológicos, como através da crítica dos budistas e dos jainistas, infelizmente tão desconhecida dos estudiosos da filosofia, no Ocidente.

Em nossa cultura, é Locke considerado, historicamente, o fundador dessa disciplina com sua obra "An Essay concerning human understanding", em 1690, onde pôs em discussão o problema do conhecimento. Leibniz, posteriormente, procurou refutar as ideias de Locke em seu "Nouveaux essais sur l'entendement humain".

Berkeley, em "A treatise concerning the principles of human knowledge" e David Hume, em " A treatise on human nature" e "Inquiring concerning human understanding", trataram dos temas que se referiam ao conhecimento humano.

Muitos consideram que é propriamente com Kant, em sua "Crítica da Razão Pura", que a gnoseologia se estruturou numa disciplina autônoma, e que os estudos posteriores de Schelling, Fichte, Schopenhauer, Hegel, Karl Robert Eduard von Hartmann, precipitaram a sua formação. Os escolásticos estudam os temas gnoseológicos na "Lógica Maior", onde se procedeu a crítica das diversas posições em face do conhecimento.

Desde então os temas gnoseológicos, com o desenvolvimento da psicologia e da dialética, avultaram de tal modo, que hoje é uma disciplina imprescindível ao estudo da filosofia, e muito preferem iniciar o estudo desta pela gnoseologia.

Podemos, agora, em face da notícia histórica sucinta que tivemos ocasião de fazer, precisar o conceito de gnoseologia, considerando-a como a disciplina que filosoficamente estuda, sob todos aspectos possíveis, o conhecimento humano.

Por sua vez a Criteriologia seria a própria Teoria do Conhecimento ou gnoseologia, na parte em que aprecia o valor dos nossos conhecimentos, quando ela enfrenta o tema principal e final, que é o da verdade.

Temos diversos modos de conhecimento, como já expusemos na Psicologia.

Na intelectualidade, temos o conhecimento do singular (intuitivo sensível) e o do geral (racional). A razão polariza seu conhecimento entre verdadeiro e falso, e o estrutura num método, que é a lógica. A intuição, polariza-o entre o certo e o errado, que é escalar. Enquanto a razão é por natureza excludente, nós empregamos um método de análise do pensamento intelectual, que sintetiza a razão e a intuição, sem excluí-las de forma alguma.

A sensibilidade, através das intuições sensíveis, e mais primariamente em sua lógica dos órgãos, que são os instintos, é regional e tópica, na lógica dos reflexos, e nos dá também um conhecimento que ultrapassa o campo da consciência vigilante, M que interessa sobretudo aos psicólogos em profundidade, o que imo deixa de ser tomado em consideração pelos estudiosos da filosofia.

A polarização da sensibilidade em prazer-desprazer, em agradabilidade-desagradabilidade, nos indica que na formação dos esquemas estruturados, há a presença da agradabilidade, da desagradabilidade, ou da indiferença, esta implicando um equilíbrio entre ambas.

Há ainda um conhecimento afetivo, a phronesis (gr.), que já estudamos. A afetividade polariza-se nos valores antipatéticos ou simpatéticos, escalarmente, e permite um conhecimento vivencial, fronético.

A interatuação (reciprocidade) entre os aspectos funcionais e operatórios do nosso espírito nos permite uma análise dialético-noética do nosso conhecimento, tema examinado na "Teoria Geral das Tensões", onde formularemos uma dialética concreta, capaz de nos permitir captar todas as distinções de nossos conhecimentos, nem sempre presentes, devido às unilateralidades costumeiras dos que se colocam num dos poios fundamentais do nosso espírito, com a exclusão do outro, como frequentemente procedem intelectualistas, racionalistas, irracionalistas, intuitivistas, e outros.

Qual o valor desses conhecimentos é a principal pergunta que deve responder a criteriologia, quer dos conhecimentos imediatamente obtidos, quer dos fornecidos pelas diversas modalidades da intuição, como os operatórios, procedidos mediatamente, como o realiza a razão.

Coloca-se assim desde logo o tema da possibilidade do nosso conhecimento, tema no qual muitas foram as respostas, que passaremos a estudar no próximo artigo.

Antes, porém, de estruturarmos uma rápida análise decadialética do conhecimento, estabeleçamos o método que iremos empregar neste livro.

Iniciaremos pelo estudo sintético da gnoseologia. Nesta parte, exporemos, em suas linhas genéricas, as diversas posições, tomadas pelos filósofos em face de tão grande problema.

A seguir apresentaremos a gnoseologia analiticamente, examinado, em ordem cronológica, o desenvolvimento das ideias expostas sobre as diversas posições já estudadas, até os dias de hoje.

Finalmente, numa construção decadialética, oferecemos a gnoseologia concrecionada no campo específico da Criteriologia.

Estamos seguros que o método que empregamos, à semelhança do que temos feito até aqui, oferece melhor base para a crítica que a criteriologia terá de fazer.

Texto tirado do livro:
Teoria do Conhecimento - Mário Ferreira dos Santos

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