segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Teoria do Conhecimento - Mário Ferreira dos Santos

MÉTODO DA SUSPICÁCIA

Preâmbulo do autor, importante enquanto orientação para leitura e reflexão de qualquer obra.

- Para o estudo da filosofia em seus campos mais complexos, como os que iniciamos nesta obra, que abrem o caminho aos estudos da Metafísica, sempre aconselhamos aos nossos alunos, em nossas aulas, e hoje o fazemos ao leitor, que tem a bondade de manusear nossos livros e lê-los, o que chamamos o método da suspicácia, que é uma atualização da suspeita, da desconfiança, a acentuação, em suma, de um estado de alerta no estudo, que só pode trazer bons frutos, ao estudioso.

- Em face da heterogeneidade das ideias, das estéreis ou não, disputas de escolas, diversidade de perspectivas, que podemos observar em toda literatura filosófica com a multiplicidade de vectores tomados, impõem-se ao estudioso a máxima segurança e o máximo cuidado para não deixar-se arrastar, empolgado pela sugestão e até pela sedução das ideias expostas, que o arraste, naturalmente, a cair em novas unilateralidades ou a prendê-lo nas teias de uma posição parcial, que não permitiria surgir aquela visão global e includente, que temos proposto em todos os nossos livros."

São as seguintes as regras da suspicácia, que propomos:

I — Suspeitar sempre de qualquer ideia dada como definitiva (ideia ou opinião, ou teoria, ou explicação, etc).

II — Pelos indícios, buscar o que a gerou. Ante um conceito importante procurar sua gênese (sob todos os campos e planos da decadialética e da pentadialética) :

a) Verificar se surge da experiência e se se refere a algo exterior a nós, por nós objetivado; b) se surge, por oposição, afrontando, assim, o espírito colonialista passivo de muitos brasileiros, que não creem, não admitem e não toleram, que alguns de nós tenham a petulância de formular pensamentos próprios (ou negação), a algo que captamos ou aceitamos; c) se é tomado abstractamente do seu conjunto: d) se o seu conjunto está relacionado a outros, e quais os graus de coerência que com outros participa.

III — Não aceitar nenhuma teoria, etc, que só tenha aplicação num plano, e não possa projetar-se, analogicamente, aos outros mais elevados, como princípio ou postulado ontológico.

IV — Suspeitar sempre, quando de algo dado, que há o que nos escapa e que precisamos procurar, através dos métodos da dialética.

V — Evitar qualquer ideia, ou noção caricatural, e buscar o funcionamento dos esquemas de seu autor para captar o que tem de mais profundo e real, que às vezes pouco transparece em suas palavras.

VI — Devemos sempre suspeitar da tendência abstracionista da nossa intelectualidade, que leva a hipostasiar o que distinguimos, sem correspondência com o complexo concreto do existir.

VII — Observar sempre as diferenças de graus da atualização de uma ideia, pois a ênfase pode emprestar à essência de uma formalidade o que, na verdade, a ela não pertence. Assim, o que é meramente acidental, modal ou peculiar, que surge apenas de um relacionamento, pode, em certos momentos, ser considerado como essenciais de uma entidade formal, permitindo e predispondo, que, posteriormente, grandes erros surjam de um ponto de partida, que parecia fundamentalmente certo.

Ao defrontarmo-nos com um absurdo ou com uma posição abstracionista absolutista, podemos estar certos que ela parte de um erro inicial. Remontando às origens, aos postulados iniciais, não será difícil perceber o erro.

VIII — Na leitura de um autor, nunca esquecer de considerar a acepção em que usa os conceitos. Na filosofia moderna, cuja conceituação não adquiriu ainda aquela nitidez e segurança da conceituação escolástica, há uma multiplicidade de acepções que põem em risco a compreensão das ideias. E muitas polêmicas e diversidade de posições se fundam sobre a maneira pouco clara de apanhar o esquema noético-eidético de um conceito, o que decorre da ausência da disciplina, que era apanágio da escolástica em suas fases de fluxo.

IX — No exame dos conceitos, nunca deixar de considerar o que incluem e o que excluem, isto é, o positivo incluído no esquema conceitual, e o positivo, que a ele é recusado.

X — Nunca esquecer de considerar qualquer formalidade em face das formalidades que cooperam na sua positividade, sem estarem inclusas na sua tensão.

Assim, por exemplo, a rationalitas, no homem, implica a animalitas, embora formalmente, no esquema essencial, a segunda não inclua necessariamente a primeira, enquanto a primeira implica, necessariamente, a segunda.

Mas, como esquemas formais, ambas se excluem, apesar de a primeira exigir a presença da segunda para dar-se no compositum, isto é, na humanitas.

XI — Sempre cuidar, quando de um raciocínio, a influência que possa ter, em nossas atualizações e virtualizações, a inércia natural do nosso espírito, o menor esforço, sobretudo nos paralogismos e nas longas argumentações.

XII — Toda afirmação que apresente cunho de verdade, verificar em que plano esta se verifica: se no ontológico, no mítico, no lógico, no formal, no gnoseológico, no material, no axiológico, no simbólico, no pragmático, etc. Estabelecida a .sua positividade, procurar as que exige para que se obtenha um critério seguro. Esta última providência, e o modo do seu processual, é a que se adquire pela matéria a ser examinada nesta obra.

Outras providências do método da suspicácia serão apresentadas nas obras posteriores desta Enciclopédia, à proporção que se tornem necessárias. Nessa ocasião, teremos o cuidado de tratar delas, expô-las com a exemplificação que se tornar imprescindível.

Texto tirado do Livro:
Teoria do Conhecimento

0 comentários :