quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A falácia do sucesso

G.K. Chesterton
Antonio Emilio Angueth de Araujo

Tem aparecido em nossos dias uma classe particular de livros e artigos que sincera e solenemente penso que possa ser chamada a mais idiota que os homens já conheceram. São livros mais selvagens que os romances mais selvagens de cavalaria e mais enfadonhos do que o mais enfadonho tratado religioso. Ademais, os romances de cavalaria eram pelo menos sobre cavalaria; os tratados religiosos sobre religião. Mas esses livros são sobre nada; são sobre o que é chamado de Sucesso. Em qualquer livraria, em qualquer revista, você encontrará obras dizendo ao povo como ter sucesso. São livros mostrando aos homens como obter sucesso em tudo; eles são escritos por homens que não conseguem obter sucesso escrevendo livros. Para começar, não há certamente tal coisa chamada sucesso. Ou, se você desejar, não há nada que não seja bem sucedido. Que uma coisa seja bem sucedida apenas significa que ela é; um milionário é bem sucedido em ser milionário e um asno é bem sucedido em ser um asno. Qualquer vivente é bem sucedido em viver; qualquer falecido pode ter sido bem sucedido no suicídio. Mas, ignorando a má lógica e filosofia da frase, podemos considerar o sucesso, como os escritores fazem, no sentido ordinário de obter dinheiro ou uma posição na vida. Esses escritores afirmam que podem ensinar o homem comum a obter sucesso em seu negócio ou especulação – como, se ele é um construtor, ele pode obter sucesso como construtor; como, se ele é um corretor da bolsa, ele pode ser bem sucedido como corretor da bolsa. Eles afirmam que podem ensiná-lo como, se ele é um merceeiro, ele pode ser um dono de iate; como, se ele é um jornalista de décima categoria, ele pode se tornar um nobre; e como, se ele é um judeu alemão, ele pode se tornar um anglo-saxão. Esta é uma proposta do tipo comercial, e penso realmente que as pessoas que compram esses livros (se alguém os comprar realmente) têm um direito moral, se não legal, de exigir seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que não dissesse literalmente nada sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um artigo sobre botânica que demonstrasse que o autor não sabe qual extremidade de uma planta cresce debaixo da terra. Todavia, nosso mundo moderno está cheio de livros sobre Sucesso e pessoas bem sucedidas que não contêm literalmente nenhuma idéia e dificilmente algum sentido verbal.

É perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (tal como assentar tijolos e escrever livros) há somente dois modos (em qualquer sentido especial) de obter sucesso. Um deles é fazer um trabalho muito bom, o outro é trapacear. Ambos são muito simples e não exigem nenhuma explicação literária. Se você desejar dar um grande salto, ou você pula mais alto que qualquer um ou consegue, de alguma forma, fingir que você o fez. Se você quer ganhar no whist, ou você é um bom jogador de whist ou tem de jogar com cartas marcadas. Você pode desejar um livro sobre saltos; você pode desejar um livro sobre whist; você pode deseja um livro sobre como roubar no whist. Mas você não pode querer um livro sobre Sucesso. Você não pode querer especialmente um livro sobre o Sucesso como estes que você pode agora encontrar espalhados aos magotes nas livrarias. Você pode querer saltar ou jogar cartas; mas você não quer ler afirmações errantes que dizem que saltar é saltar e que os jogos são vencidos pelos vencedores. Se esses escritores, por exemplo, dissessem algo sobre ser bem sucedido no salto, eles diriam algo assim: “O saltador deve ter um claro objetivo à sua frente. Deve desejar ardentemente pular mais alto que outros homens que participam da mesma competição. Não deve deixar que o mais débil sentimento de misericórdia (vindo dos nojentos Little Englanders e Pro-Boers[1]) impeça-o de tentar fazer o melhor. Deve lembrar que uma competição de salto é claramente uma competição, e que, como Darwin gloriosamente demonstrou, O MAIS FRACO VAI PARA O PAREDÃO.” Este é o tipo de coisa que o livro diria, e que seria útil, sem dúvida, se isto fosse lido em voz baixa e tensa a um jovem a ponto de dar um salto. Se, por outro lado, o filósofo do Sucesso, em suas excursões intelectuais, esbarrasse em nosso outro caso, o do jogo de cartas, seu estimulante conselho seria: “No jogo de cartas, é muito necessário evitar o erro (comumente cometido por humanitários sentimentais e defensores do livre comércio) de permitir seu oponente ganhar o jogo. Você deve ranger os dentes, morder, ir e vencer. Os dias de idealismo e superstição acabaram. Vivemos num tempo de ciência e rude senso comum, e foi agora provado definitivamente que em qualquer jogo onde dois participam SE UM NÃO GANHA OU OUTRO SIM.” É tudo certamente muito emocionante; mas confesso que se eu fosse jogar cartas, eu preferiria ter algum pequeno e decente livro que me ensinasse as regras do jogo. Além das regras do jogo toda a questão fica sendo sobre o talento ou a desonestidade; e eu procuraria desenvolver uma das duas coisas – qual delas não sou eu que vou dizer.

Folheando uma revista popular, encontrei um estranho e divertido exemplo. Há um artigo intitulado “O Instinto que Faz Pessoas Ricas”. Ele é decorado na primeira página com um formidável retrato de Lord Rothschild. Há muitos métodos específicos, honestos e desonestos, que fazem as pessoas ricas; o único “instinto” que conheço que faz isso é aquele instinto que a teologia cristã cruamente descreve como “o pecado da avareza”. Isso, contudo, não vem ao caso. Desejo citar os seguintes incríveis parágrafos como uma parte do conselho típico de como ser bem sucedido. Ele é tão prático; ele deixa tão pouca dúvida sobre qual deve ser nosso próximo passo.

“O nome de Vanderbilt é sinônimo de riqueza obtida pela empresa moderna. ‘Cornelius’, o fundador da família, foi o primeiro dos grandes magnatas americanos do comércio. Ele começou como o filho pobre de um fazendeiro; terminou vinte vezes milionário.

“Ele tinha o instinto de ganhar dinheiro. Ele aproveitou suas oportunidades, oportunidades que lhe foram proporcionadas pela aplicação da máquina a vapor ao transporte oceânico, e pelo nascimento da locomoção ferroviária no subdesenvolvido, mas rico, Estados Unidos da América, e conseqüentemente, ele amealhou uma imensa fortuna.

“É certamente óbvio que não podemos seguir exatamente as pegadas desse grande monarca ferroviário. As oportunidades específicas que lhe apareceram não nos ocorrem. As circunstâncias mudaram. Mas, embora isso aconteça, ainda, em nossa própria esfera e em nossas próprias circunstâncias, podemos seguir seus métodos gerais; podemos aproveitar aquelas circunstâncias que nos são apresentadas, e nos proporcionar a justa oportunidade de sermos ricos.”

Em tal estranho discurso, vemos muito claramente o que está realmente no fundo desses artigos e livros. Não é apenas negócio, não é nem somente cinismo. É misticismo; o horrível misticismo do dinheiro. O escritor do trecho não tem a mais remota noção de como Vanderbilt ganhou seu dinheiro, ou como qualquer um pode ganhar o seu. Ele, de fato, conclui suas observações advogando algum esquema; mas este não tem nada a ver com Vanderbilt. Ele meramente desejou prostrar-se ante o mistério do milionário. Pois quando nós realmente adoramos algo, amamos não só sua clareza, mas sua obscuridade. Exultamo-nos com sua própria invisibilidade. Assim, por exemplo, quando um homem está apaixonado por uma mulher, ele sente um especial prazer no fato de que a mulher é insensata. Assim, novamente, o poeta muito devoto, celebrando seu Criador, sente prazer em dizer que "Deus age de forma misteriosa".[2] Ora, o autor do parágrafo que citei não parece ter tido nada a ver com um deus e não posso imaginar (pela sua extrema impraticabilidade) que ele tenha se apaixonado, algum dia, por uma mulher. Mas a coisa que ele adora – Vanderbilt – ele trata exatamente desta forma mística. Ele se regozija realmente do fato de que sua deidade, Vanderbilt, esconde dele um segredo. Com isso sua alma é tomada com um tipo de acesso de astúcia, um êxtase de poder sacerdotal, que o faz imaginar poder dizer à massa aquele terrível segredo que lhe é desconhecido.

Falando sobre o instinto que faz pessoas ricas, o mesmo escritor observa:

“Nos tempos antigos, sua existência era completamente compreendida. Os gregos o consagravam por meio da história de Midas, do “Toque de Ouro”. Aqui estava um homem que transformava tudo que tocava em ouro. Sua vida era um progresso dentre os ricos. Tudo que encontrava em seu caminho, ele transformava no precioso metal. ‘Uma lenda tola’, diziam os sabichões da era Vitoriana. ‘Uma verdade’ dizemos nós modernos. Todos conhecemos tais homens. Estamos sempre encontrando-os ou lendo sobre tais homens que transformam tudo que tocam em ouro. O sucesso segue suas pegadas. O caminho de suas vidas é infalivelmente para o alto. Eles não falham.”

Infelizmente, contudo, Midas pode falhar; ele falhou. Seu caminho não o levou infalivelmente para o alto. Ele morreu de fome porque tudo que ele tocava, um biscoito ou um sanduiche de presunto, virava ouro. Esse é o ponto central da história, embora o escritor tivesse de suprimi-lo deliberadamente, ao escrever tão proximamente a um retrato de Lord Rothschild. As antigas fábulas da humanidade são, de fato, incompreensivelmente sábias; mas não devemos corrigi-la no interesse do Sr. Vanderbilt. Não devemos apresentar o Rei Midas como exemplo de sucesso; ele foi um fracasso de um tipo dolorosamente raro. Ademais, ele tinha orelhas de burro. E também (como muitas outras pessoas ricas e proeminentes) ele empenhou-se em ocultar o fato. Foi seu barbeiro (se me lembro bem) quem teve de guardar segredo dessa peculiaridade; e ele, ao invés de se comportar como uma pessoa empreendedora da escola do sucesso-a-todo-custo e tentar chantagear o Rei Midas, foi sussurrar essa esplêndida pérola de escândalo social para os caniços, que se deliciaram enormemente. Conta-se também que eles sussurraram o fato enquanto os ventos os balançavam para lá e para cá. Olho reverentemente para o retrato de Lord Rothschild; leio reverentemente sobre as proezas de Vanderbilt. Sei que não posso transformar tudo que toco em ouro; mas também sei que nunca tentei, tendo eu a preferência por outras substâncias, como a grama e um bom vinho. Sei que essas pessoas foram certamente bem sucedidas em alguma coisa; que elas certamente ultrapassaram alguém; sei que elas foram reis num sentido que nenhum rei tinha sido antes; que elas criaram mercados e transpuseram continentes. Todavia, sempre me parece que há algum fato doméstico que estão escondendo, e algumas vezes penso ouvir do vento a risada e o sussurro dos caniços.

Pelo menos, esperemos que vivamos todos para ver esses livros absurdos sobre o Sucesso cobertos propriamente de escárnio e abandono. Eles não ensinam as pessoas a obterem o sucesso, mas ensinam-nas a serem esnobes; eles realmente difundem um tipo de má poesia do materialismo. Os puritanos estão sempre denunciando livros que inflamam a luxúria; o que diremos dos livros que inflamam as mais vis paixões da avareza e do orgulho? Cem anos atrás, tínhamos o ideal do Aprendiz Diligente;[3] era ensinado aos garotos que com parcimônia e trabalho eles todos se tornariam Lord Mayors.[4] Isso era falacioso, mas era viril, e continha um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade, temperança não evitará que um pobre enriqueça, mas pode ajudá-lo a se respeitar. Trabalho duro não o fará um homem rico, mas fá-lo-á um bom trabalhador. O Aprendiz Diligente sobe por meio de poucas e limitadas virtudes, mas ainda assim virtudes. Mas o que dizer do evangelho pregado pelo novo Aprendiz Diligente; o aprendiz que sobe não pelas suas virtudes, mas abertamente pelos seus vícios.

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[1] Referência aos grupos que se opunham à expansão armada do Império Britânico e especialmente à Guerra dos Bôeres. A referência é irônica, pois o próprio Chesterton era um grande opositor desta guerra. (N. do T.)
[2] Referência a um poema de William Cowper (1731 – 1800) intitulado God moves in a mysterious way. (N. do T.)
[3] William Hogarth, pintor oitocentista inglês, pintou uma série de quadros com o título “Diligência e Ociosidade”. Esta série é um trabalho altamente moral. Retrata os destinos muito diferentes que tem o aprendiz diligente e o aprendiz ocioso. O ocioso é enforcado em Tyburn e o diligente casa com a filha de seu mestre e depois chega a ser Lord Mayor.
[4] Lord Mayor é o administrador da Cidade de Londres, ou seja, o centro histórico de Londres. (N. do T.)


"Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) era versado na arte das letras. Além de jornalista, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, polemista, apologista, biógrafo, cartunista e filósofo (e pensarem que esgotamos seus dons, ainda não), Chesterton também trilhou pelo campo da economia."

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