quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O sagrado no ofício do artista


Por , outubro 10, 2009 11:54 pm



Escrevi este texto em 2002 para uma pequena conferência a um grupo de artistas plásticos, evidentemente muita coisa mudou de lá pra cá, principalmente depois de ter aprofundado meus estudos em estética e, sobretudo, em filosofia neoplatônica. No entanto, acredito que valeu pelo meu entusiasmo, naqueles anos, em tentar encontrar uma resposta, ainda que  numa esfera muito pessoal e restrita, sobre o que acredito ser fundamental na vida e no trabalho do artista. Como esse texto foi escrito para ser lido, não me preocupei com notas e citações das  minhas referências bibliográficas e intelectuais; vale frisar também que na época eu estava motivado por um tipo de filosofia  que hoje já não me entusiasma tanto.
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A natureza ama esconder-se
Heráclito. Frag: 123.

Odilon Redon, French, 1840 – 1916. Stained Glass Window
1. Ao escolher este título “o sagrado no ofício do artista”, esperava, como é esperado a qualquer título, ser preciso, claro e, na medida do possível, persuasivo; esperava também chamar e tocar a atenção de vocês diretamente e, de certa forma, já dizer o que considero e o que acredito ser o fundamental no fazerartístico.
Tive a pretensão, com esse título, de formular uma resposta sobre o que penso a respeito damissão do artista: que, de alguma maneira, a considero sagrada. Sinto que fracassei. Fracassei, porque, primeiramente, dizer que algo é sagrado, atribuir a noção de sagrado a alguma coisa é, ao mesmo tempo, dizer tudo e não dizer absolutamente nada.
É, na maioria das vezes, um jeito de se esquivar de grandes dificuldades ou explicações, ressaltando, sem compromissos, qualquer coisa de extraordinário, de fantástico ou magnífico, justamente, para não ter que explicar e explorar o problema de frente. Não obstante, com esse título, ao invés de ir diretamente ao núcleo do problema, consegui apenas tangenciá-lo com uma demarcação um tanto quanto leviana.
Leviana o bastante para os limites que correspondem à sua dimensão. O que quero dizer com tudo isso? Quero dizer que essa foi a maneira mais agradável e, veremos porque, também, a mais sincera, de convidá-los a refletirmos juntos sobre a obra arte e as questões mais elementares, mais fundamentais da criação artística. Talvez, o subtítulo poderia ser “ensaio sobre a experiência da criação artística”.
Porque ensaio é também experimentar, no caso, uma experiência orientada por uma reflexão pessoal — em outras palavras, uma reflexão limitada às capacidades, aos anseios e dúvidas pessoais. O que não significa dizer, evidentemente, isenta de critérios e cuidados.
O objetivo de um ensaio não é dizer a verdade em sua totalidade e sem erro, mas é propor ao outro a experiência de um itinerário de reflexões. E é justamente isso que pretendi com esse título: olhar e pensar a obra de arte de um ponto de vista pessoal, não obstante suas pretensões filosóficas, percorrer um caminho de reflexões, ou, em outras palavras, olhar a experiência artística diretamente nos olhos.
Precisamos, aqui, invocar aquela antiga paciência do logos e recolher o que a arte nos oferece, o que dela emerge de mais peculiar quando perguntamos por aquilo que a torna possível. Para isso, precisamos olhá-la na intimidade. Mas o que significa olhar a arte e a criação do ponto de vista filosófico? Significa, antes de tudo, que não vamos pensá-la, nem examiná-la, a partir do ponto de vista histórico, que também não vamos pensá-la do ponto de vista da psicologia, nem tão pouco vamos questionar problemas particulares ou de ordem prática ou técnica mais específica.
Não que essas coisas não sejam importantes, veremos que as questões aqui são outras — podemos conversar sobre esses e outros aspectos na segunda parte desse encontro.  Mas enfim, nos esforçaremos a trilhar o caminho de uma possível – prefiro dizer, necessariamente emergencial – filosofia da arte. Em outras palavras, no rigor mais específico dos termos, nos propomos a ir de encontro com o que o fazer artístico nos revela quando perguntamos pela sua essência, por aquilo que o torna possível; ir de encontro com o que nos revela, quando perguntamos por aquilo que ele é.
E, quando sobre uma coisa se pergunta “o que é?”, aquele maneira de perguntar tão peculiar dos antigos gregos, expressa na forma tí estiv, o que se investiga não é este ou aquele aspecto particular, mas sim a totalidade, ou melhor, a unidade em meio à multiplicidade de todo o seu modo de ser. É investigar, não sem ousadia, o princípio que a constitui como tal e do qual dependem todos os seus modos de ser. Perguntar pelo ser, perguntar “o que é a arte” é ir, de algum modo, de encontro a algo que consideramos como sendo sagrado.
2. Porém, para compreender o que queremos dizer sobre o ofício do artista, quando afirmamos que há nele algo de sagrado, nada se pode fazer se não se sabe o que significa sagrado. E também, nada se pode dizer se não pensarmos o que está relacionado diretamente ao ofício do artista. Essas questões, de início, não parecem apresentar grandes dificuldades, uma vez que é evidente que o trabalho do artista está intrinsecamente relacionado com a criação da obra de arte. Mas, o que faz o artista? Pergunta Richard Wollheim no primeiro capítulo da sua a pintura como arte.
No fundo, essas questões que parecem simples, à primeira vista, são bastante complicadas para os homens de hoje imersos na correria e impaciência do dia-a-dia. Questionar a própria idéia de criação relacionada com a idéia de arte exige aquela velha calma filosófica da especulação, da theorein, do olhar contemplativo. Nessa atmosfera exigida, podemos perguntar: o que vem a ser Arte? Ou, o que significa criar? Podemos ir ainda mais longe perguntando: em que condições o artista cria? Cria pinturas? Mas quando a pintura é arte e por quê? Vejamos, o artista ao criar, cria, evidentemente, alguma coisa, cria em algum lugar, em algum momento, mas o que é que o artista cria para ser considerada obra de arte? Cria pinturas, mas há pintores de finais de semana que não criam obras de arte, se o critério é só pintar pura e simplesmente, quando damos tinta e papel aos chimpanzés eles também pintam e nem por isso são consideramos artistas e o que fazem considerado como obras de arte.
Nossos pequenos filhos também pintam e também não consideramos como obras de arte o que pintam — isso nós não podemos falar para eles.  Mas o que são obras de arte? Para que nos servem as obras de arte? Há, de fato, alguma coisa de sagrado nelas? Portanto, recolocamos à questão: que é o sagrado? E, caímos assim, aos moldes de Heidegger na sua a origem da obra de arte, num círculo que, aparentemente, não apresenta saída. Pois, ao formularmos essas perguntas, que já não estão mais na jurisdição do artista, logo percebemos que, o que parecia claro e óbvio, torna-se agora problemático e obscuro.
Para sair dessa enrascada filosoficamente voluntária, recoloquemos, definitivamente, nosso problema, vamos ver para onde ele nos leva: o que significa dizer que o ofício do artista é sagrado? O que é a obra de arte? Lançamos assim um problema, um problema obscuro, profundo e fundamental, que nos dias como os nossos, tão glaciais a qualquer forma de reflexão mais elementar e mais cuidadosa, são poucos os que ousam colocá-lo.
3. Afinal, o que significa sagrado? Aqui importo – com todos os cuidados que me são exigidos – de Miercea Eliade, na sua fundamental reflexão a respeito da essência do sagrado e do profano – então importo da Ciência da Religião, e por isso o cuidado – onde M. Eliede nos diz que “a primeira definição que se pode dar ao sagrado é que ele se opõe ao profano”; que “o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo diferente do profano”; que “o sagrado equivale ao poder e, em última análise, a realidade por excelência”; que a “potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia” e que “o sagrado está saturado de ser”.
Esses apontamentos, apresentados aqui de modo bastante esquemáticos, compreendem a introdução da sua obra, nos definem aspectos fundamentais a respeito do que poderia ser pensado como algo sendo sagrado; não obstante, o que de fato nos interessa, é entender em que sentido essa noção de sagrado está tão intimamente ligada ao problema da criação artística. Ou não está? Talvez uma outra definição, que fez história no início do século XX, e que pode nos ajudar bastante na compreensão da modalidade da experiência religiosa – e não da experiência artística – é a de Rudolf Otto no seu livro Das Heilige., Segundo ele o sagrado seria uma experiência terrível demysterium tremendum et fascinans, mistério tremendo e fascinante, provocada pela revelação de um aspecto do poder divino, ele chama de numem, aquilo que sustenta o fenômeno religioso.
A manifestação do sagrado seria a experiência de uma realidade inteiramente diferente das realidades ditas “naturais”, cotidianas, comuns. “O homem tem um sentimento de sua profunda nulidade, ‘o sentimento de não ser mais que uma criatura’”.
4. Sem rodeios perguntamos: o que isso tem haver com o que faz o artista? Rapidamente, num primeiro momento, vimos que o oficio do artista está intrinsecamente relacionado à idéia de arte. Um não se realiza sem o outro. A arte não se realiza sem o artista e o artista só se realiza na obra de arte.
Então o que é a arte e qual a missão do artista? Respondemos de uma só vez: Arte é Intuição e a missão do artista é a Consagração do Instante. A convergência dessas respostas somada à noção de sagrado, que refletimos acima, é a pedra de toque fundamental, da reflexão ao caráter mais originária sobre as artes plásticas.
5. Octavio Paz, poeta mexicano e um dos mais respeitados críticos literários do século passado, no seu belíssimo estudo sobre a Imagem poética, apresenta uma espantosa definição para poesia, ele diz: “a poesia é entrar no ser”. Tomei a liberdade de dizer “a arte é entrar no ser – a arte é poesia”.Esse simples enunciado é a principal porta de acesso ao que há de sagrado no ofício do artista. É a partir dele que brota a unidade da arte como intuição e forma mais ‘esférica’ de com-sagrar o instante.
O que se quer dizer com – “a arte é entrar no ser?”. Que o acesso fundamental ao ser só é possível no ‘momento da criação’. Aqui estamos relacionando a experiência de criaturidade com a experiência de criação. Ou o artista não está imerso na fascinação quando cria?  Vejamos uma expressão radical de Merleau-Ponty, filosofo fenomenólogo do séc XX, onde ele diz que: “O ser exige de nós criação para que dele tenhamos experiência”. O artista necessita dessa exigênciaO homem necessita dessa exigência radical.
6. Por que haveria exigência de criação? Porque como diz Heráclito frag. 123: “a natureza ama esconder-se”. E o artista quer instaura no mundo essa natureza, situada num tempo fora do tempo, anterior e originário, o artista revela o princípio do princípio, encarna-o na história. O que é, afinal, a obra de arte e mais especificamente, o que é a pintura? É justamente a expressão visível da sentença, também heraclitiana, que guia toda a tradição e história do ocidente: frag: 101 “procurei-me a mim mesmo”.
Aqui vale uma reflexão particular sobre a visão de mundo contemporânea. Infelizmente nossa época está acostumada a ver na matéria das coisas somente o que é material do trabalho humano, apenas a funcionalidade das coisas. Outra expressão de Merleau-Ponty sobre esse aspecto é “a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las”. Uma pergunta como a nossa, como nos propomos a trilhar aqui, nos leva muito além da noção de homem como homo faber, que é a noção mais comum que temos hoje de uma antropologia. O humano, animal racional por excelência, fez da racionalidade apenas uma operação instrumental transformadora e manipuladora dos fenômenos. Expulsou definitivamente o lugar para simbolizar a realidade do eterno, em outras palavras, realidade que apoiava a noção de sagrado.
A noção de sagrado pressupõe uma observação radicalmente oposta à visão funcional que temos do mundo. Não é diferente em relação à arte. Consideramos as coisas como puramente coisas funcionais, com mera função do trabalho e da tarefa do homem. Que impossibilita compreender tanto a arte como o sagrado, isto é, a arte como sendo sagrada.
O que significa, então, o artista, no seu gesto de criação, entrar no ser e experimentá-lo?  Será que é a experiência da noção de estética, fundada numa noção de beleza meramente funcional e aparente, tão difundida em nossos dias, que funda nossa capacidade de experimentar o ser, ou seja, que busca o núcleo íntimo da nossa existência? Não creio! O que é o sagrado, ou melhor, o que é artístico num mundo técnico completamente esvaziado de sentido humano?
Chamamos, sagrado, os momentos decisivos da ‘criação’, momentos em que ‘nascem’ os instantes decisivos da existência humana, tanto daquele que o homem é em sua essência, como a sua forma mais elementar e íntima de relacionar-se com o ser. A arte é a consagração desses momentos decisivos.
7. É nesse sentido que penso que a obra de arte e, mais especificamente, a pintura, como a verdadeira expressão de simpatia. Não é, por exemplo, como o trabalho, visto hoje como um instrumento para se apossar das coisas e do mundo. O trabalho pelo trabalho é a marca autentica de uma época que vive imersa no terror do abismo da perda de sentido. A arte, pelo contrário, é, justamente, o momento íntimo do encontro espontâneo entre a physis e o homem.
Onde homem e mundo doam um ao outro, valores, doam um ao outro sentido. Se, como mostrou bem o professor Lima Vaz, no seu ensaio a fenomenologia do ethos, que as duas formas evidentes, manifestas, próprias da estrutura do ser, como era para os gregos, são a physis e o ethos. Sendo oethos a forma de transcrição da physis na práxis ou na ação humana. A arte não é senão a busca ou contato, verdadeiramente “simpático” desse encontro. O artista busca, no seu gesto primeiro, o lugar originário dessa transcrição. É o momento em que o homem é afetado pela physis e a physis é afetado pelo homem.
physis convoca o homem, e doa ao homem a sua marca e o homem convoca a physis e doa a sua.A unidade da obra arte representa, na sua particularidade, o resultado universal desse encontro. Como disse Cézanne “a natureza está no interior”, no interior tanto do homem como dela mesma. Para usar algumas expressões de Merleau-Ponty, a pintura da “existência visível àquilo que a visão profana acredita invisível”, é a “visão devoradora, para além dos ‘dados visuais’, o artista tem que “admitir que as coisas entram nele ou que o espírito sai pelos olhos para ir passear pelas coisas”.
A antropologia teológica pode também nos fornecer um exemplo bastante interessante: se pensarmos miticamente com os “cristãos”, a obra de arte é a tentativa humana de re-ver, isto é, re-atualizar o momento em que Deus insufla no homem, depois de formá-lo do barro, o seu hálito, para que o homem tenha sua imagem e semelhança. Re-atualizar e rememorar esse momento é o que o homem tem feito por meio da arte. Há no homem, e é isto o que ele busca, a necessidade de (re-)“animar” a terra. A arte é a resposta do homem a Deus. Oração em forma de cores, sons queconsagra o instante primeiro da criação abundante, incessante do Deus Criador. Mas isso foi um exemplo possível e mítico. Falemos à maneira filosófica.
A arte é a verdadeira face do eterno no mundo e a verdadeira face do mundo para o eterno. Entender a arte como encontro íntimo, isto é, como simpatia, sim-pathos, é compreender que o homem é um ser que valora o mundo, mas é também compreender que o mundo valora o homem.  Ver a arte como simpatia é a resposta que o homem da à sua condição. Pathos é termo em grego para paixão ou sentimento, para emoção; isto é aquilo que se sente, que nos afeta.
É a perturbação do ânimo causado por uma ação externa. Mas é também passividade. A atividade da visibilidade na criação artística não é apenas passiva e é por isso do pré-fixo sym, expressão também grega, que tem a idéia de lateralidade, companhia. Poderíamos usar o a expressão meta que da a noção de participação dos dois, como contato físico de duas partes. Mas o sym da simpatia nos oferece a noção de companhia, de algo que se dá e realiza mutuamente.
É a visibilidade do interior do mundo no homem e o interior visível do homem no mundo. Essa relação nos mostra que não há só passividade do homem frente ao mundo, mas mútua atividade-passividade tanto do homem como do mundo. Porque é o encontro comum da realização do eterno no humano e do humano no eterno. Que re-atualiza a eterna novidade por meio da criação radical. Mas não se esquecendo que no homem há um desnível da sua estrutura em relação a necessidade physis, refletida na contingência e falta de sentido da sua vida.
Por isso a exigência da criação. Porque é a arte que doa novamente, atualiza novamente o sentido da vida. É isso que penso ser a atividade sagrada no ofício do artista: a realização e a revelação, concedida apenas ao homem, daquele mysterium tremendum et fascinans do interior do mundo no mundo.
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