quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O papiro dos coptas e o papinho dos contras



Segue meu comentário publicado junto à matéria 'O papiro da "esposa de Jesus" é visto como falsificação por especialistas', de Joe Kovacs, no Mídia Sem Máscara.





O papiro dos coptas e o papinho dos contras




Pelo exposto na matéria, sobram motivos para se duvidar da autenticidade do papiro. Mas ainda que o fragmento seja de fato do século IV, é lamentável ter de observar tanta gente pensando que isso pode por abaixo o fato conhecido de que Jesus nunca se casou. Haja paciência!



Não é a “tradição cristã”, como vi por aí, que garante que Cristo jamais se casou. São os inúmeros relatos, não só os bíblicos, como também os extra-bíblicos, de seus contemporâneos, dentre os quais alguns que o amavam e outros que o odiavam, que apontam para o fato de que Jesus Cristo jamais teve uma esposa. Resta alguma dúvida de que, caso ele tivesse uma esposa, esta mulher não seria apenas conhecida, mas sim uma referência histórica, um tema milenar de estudos teológicos, culturais e históricos, e seria até mesmo idolatrada?


É digno de nota que em casos como este os princípios metodológicos para a pesquisa histórica séria são sempre escamoteados ou evocados conforme a situação. Um destes princípios é o que atribui pesos distintos aos relatos das testemunhas. Quanto mais próxima da época do episódio é a testemunha, maior validade tem seu relato. Esse é o primeiro princípio que precisa, na presente situação, ser escondido pelos críticos do cristianismo. Pois o papiro é do século IV. Já os vários judeus, os discípulos, outros seguidores de Jesus, os romanos e gente de outros povos que viram a Cristo em Belém, em Cafarnaum, em Jerusalém, em Nazaré, em Caná, e em outras cidades, ou seja, as testemunhas oculares de sua vida, nada dizem sobre o casamento de Cristo, ou dEle ter tido uma esposa, fato que jamais passaria despercebido se tivesse acontecido. 


Mas os críticos, quando lhes convém, invertem os critérios. E então um pedaço de texto do século IV passa a valer mais do que textos completos de testemunhas oculares. Testemunhas consideradas confiáveis, se aplicarmos o método de análise de confiabilidade de testemunhas criado por David Hume (um ateu). Elas passam com louvor em todos os requisitos, e ainda vão além: deram a vida pelo seu testemunho.



Para atacar a ressurreição de Cristo ou o valor do cânon, os críticos do cristianismo fazem justamente o contrário: deixam estas testemunhas de lado e dão mais credibilidade a meras hipóteses criadas até mesmo séculos depois.



A pesquisadora Karen King, da Universidade de Harvard, que encontrou o papiro está correta: o texto não prova nada. O historiador André Chevitarese, da UFRJ, acertou ao dizer que usar o achado para dizer que Cristo era casado não passa de sensacionalismo, e que o relato diz mais sobre os cristãos coptas do século III do que propriamente sobre Jesus Cristo.



Também vale notar é que a apologética histórica sempre tem de lidar com a objeção da incognoscibilidade da história, que é jogada na gaveta assim que qualquer pedaço de papel de uma época qualquer supõe, em algum nível, uma ameaça a qualquer doutrina cristã milenar. Apenas nestes casos "a história prova" isso ou aquilo. Ou seja: evidência histórica, para alguns, só vale quando é contra o cristianismo. 



Por aí se vê o que é o "pensamento crítico" e o "uso da razão" para certos ateus, neoateus militantes, agnósticos, botequeiros e palpiteiros compulsivos.



E não deixa de ser engraçado o fato de que muitos destes que não poucas vezes dizem que Jesus nem mesmo existiu, agora afirmam que Ele era casado e que os cristãos não querem admitir tal fato. 



Eis a “lógica” destes que posam de guardiões da ciência. Mesmo sem existir alguém pode se casar.


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