terça-feira, 30 de outubro de 2012

O filósofo desconhecido Mário Ferreira dos Santos - parte I


Como o conteúdo dessa entrevista é deveras longo, vou destacá-lo em partes, fazendo desse precioso arquivo um marco do grande filósofo brasileiro do sec. XX. 




Mário Ferreira dos Santos
Mário O grande (desconhecido) Filósofo Brasileiro







Joel LoboEsta entrevista foi publicada no ano de 1976, em “Rumos da Filosofia no Brasil” — coletânea organizada pelo Padre e Professor Stanislavs Ladusãns S. J., Edições Loyola —, onde foram registrados os depoimentos de 27 autores e pensadores que traçam um panorama geral dos caminhos da Filosofia no Brasil da época. O autor, Pe. Stanislavs Ladusãns (1912-1993), nasceu na Lituânia, doutorouse em Filosofia em Roma. Veio ao Brasil pela Ordem dos Jesuítas; aqui fundou a Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, em 1970, e o Centro de Pesquisas Filosóficas em São Paulo.

Ladusãns, ao recomendar a obra do filósofo Mário Ferreira dos Santos às Academias e Sociedades de Filosofia da Europa fez a seguinte declaração:


“Estou realizando uma pesquisa científica sobre a situação atual do pensamento filosófico brasileiro, a fim de constatar, com objetividade, em que ponto se encontra a Filosofia hoje no Brasil, como ela se desenvolve, que metas está visando e que objetivos deve atingir. Durante esta pesquisa científica, ainda em curso, descobri um Pensador de extraordinário valor - Dr. Mário Ferreira dos Santos, nascido no dia 3 de janeiro de 1907 e falecido no dia 11 de abril de 1968. A descoberta deste filósofo solitário, dedicado a uma intensa atividade de pensamento e produção literária, surpreendeu-me não pouco e proporcionou-me a grata oportunidade de entrar em frequentes contatos pessoais com ele, homem que ainda não foi descoberto no Brasil”...
Autorretrato

Mário Sou natural do Estado de São Paulo, filho de pai português, de família de intelectuais e de mãe amazonense, de ilustre família cearense. Iniciei meus estudos num ginásio de jesuítas, onde cursei até os dezoito anos de idade, ingressando, depois, no curso superior, onde me formei em Direito e Ciências Sociais. Casei-me aos 23 anos, com D. Yolanda Lhullier dos Santos, então com 19 anos, companheira fiel e sempre a estimuladora e inspiradora de meu trabalho. Tenho duas filhas, Iolanda e Nadiejda, ambas hoje casadas, dedicadas ao estudo, autoras de inúmeras obras que, com grande êxito, se expandem pelo país, algumas com mais de dez edições.

Mantive sempre uma atitude de independência e de liberdade, fugindo de toda participação, tanto quanto possível, da vida política e das rodas literárias, por considerar dissolvente o primeiro ambiente e deletério o segundo. Em silêncio, passei os anos estudando, dedicando-me aos trabalhos de advocacia e ao magistério particular, bem como ao ramo editorial, até que tivesse meios de poder editar minhas obras, que iniciei, primeiramente, lançando-as sob pseudônimos, dos quais possuo um número de mais ou menos quinze. Só por volta de 1945 comecei a editar alguns livros com o meu próprio nome. Procedia assim por saber que havia nascido num país onde domina o preconceito de que obras de Filosofia não podem surgir e ainda provocam a desaprovação de muitos, que não toleram a audácia de um brasileiro tentar fazer o que se julga apenas possível a intelectuais europeus.

Na verdade, registrou-se que os meus livros editados com pseudônimos estrangeiros tiveram realmente grande venda, sendo que alguns atingiram até dezenas de milhares de exemplares. Mas quando em 1952 resolvi, definitivamente, enfrentar a realidade e editar os livros com meu próprio nome, contra a opinião geral de todos, que prenunciavam o completo malogro dessa iniciativa, fiz uma experiência impressionante. Não só obtive um êxito que foi muito além de minha expectativa — porque a venda atingiu a números que eu jamais poderia calcular — como muitas de minhas obras chegaram a ter, no decorrer dos anos, cinco, seis, nove, dez e até doze edições, alcançando a milhões de exemplares vendidos, o que, à primeira vista, pareceria impossível. Este fato impressionou-me vivamente, porque, durante todo esse período, não lancei mão de nenhuma demagogia publicitária, não solicitei a quem quer que fosse neste país a escrever sobre os meus livros, pois não enviei exemplares a ninguém, de modo a não constrangê-lo a escrever alguma coisa a respeito de minha obra.

Meus livros foram, pois, entregues ao seu próprio destino, sendo que os leitores foram os únicos propagandistas que eles tiveram. Foram aqueles que os aconselharam a outros leitores e assim as obras foram tornando-se conhecidas e procuradas. Nunca foram vendidas, mas compradas; nunca obtive a menor boa vontade de quem quer que fosse e poucos livreiros se interessaram pela colocação de meus livros, pois a quase totalidade afirmava que não havia a menor procura de obras de Filosofia.

Eram os leitores que as procuravam, eram eles que vinham à minha residência buscar os livros e que me escreviam cartas solicitando as obras. Foi assim que as vendi, sendo que a Livraria e Editora Logos Ltda. e a Editora Matese, as editoras de minhas obras, estão hoje organizadas e são, praticamente, as únicas que as vendem, pois poucas editoras ou livrarias no Brasil trabalham com meus livros, mesmo porque não me interessa a distribuição dos mesmos, dadas as dificuldades de reedição, que são muito grandes.

Dediquei-me, no decorrer de minha vida, ao estudo e durante grande parte dela, ao magistério particular. Nunca ocupei nenhum cargo em nenhuma escola, por princípio. Deliberei, desde os primeiros anos, tomar uma atitude que consiste em nunca disputar cargos que podem ser ocupados por outros. É uma questão de princípio. Sempre decidi, criar o meu próprio cargo, a minha própria posição e situação, sem ter de ocupar o lugar que possa caber a outro. O meu lugar seria exclusivamente meu, criado por mim para mim mesmo. Eis por que não disputo, nunca disputei, nem disputarei qualquer posição que possa ser ocupada por quem quer que seja. 

A minha vida, em síntese, é simplesmente esta.

“Sempre decidi, criar o meu próprio cargo, a minha própria posição e situação, sem ter de ocupar o lugar que possa caber a outro. O meu lugar seria exclusivamente meu, criado por mim para mim mesmo. Eis por que não disputo, nunca disputei, nem disputarei qualquer posição que possa ser ocupada por quem quer que seja.”

Qual a gênese e o desenvolvimento do seu pensamento filosófico e a sua atual estrutura?



Mário Meu pai, português de nascimento, caracterizava-se por acentuado ateísmo e por uma marcante tendência anticlerical. Revelava, em todas as ocasiões, a sua oposição ao clero. Entretanto, tendo eu, desde cedo, mal aprendera a ler, me interessado por temas filosóficos (e a consciência que tenho de mim mesmo nasceu da colocação de um problema filosófico que tentei resolver), um dia meu pai me chamou e disse: “Meu filho, para teu bem vou fazer uma coisa que vai escandalizar os meus amigos: tu vais estudar com os jesuítas”. No dia seguinte, dirigiu-se ao ginásio dos jesuítas e, segundo o que ele me relatou depois, disse-lhes: “Todos sabem que sou adversário da Igreja Católica e que a tenho combatido desde moço, mas sei que, para educar, vós, jesuítas, sois os mais capazes. Meu filho revela propensão para temas filosóficos; não quero exercer sobre ele a minha ação. Julgo que sois mais competentes do que eu para guiá-lo no conhecimento. De minha parte, prometo-vos que, em casa, respeitarei sempre as suas ideias”.

Declaradas estas condições, fui aceito. O resultado foi que meu pai passou a ser mal compreendido pelos companheiros do grupo que ele dirigia, que julgaram a sua atitude uma verdadeira defecção, o que o levou a afastar-se totalmente das atividades anticlericais e ateístas.
Com os jesuítas, desde o início, recebi a orientação que me aproximou da Filosofia Positiva, dela fazendo a espinha dorsal da estrutura filosófica que hoje tenho: a Filosofia Positiva e Concreta. Positiva no sentido da Filosofia que parte e permanece na afirmação, no que constrói, que pertence a todos os grandes ciclos culturais da humanidade, mas que encontrou o seu desenvolvimento máximo no pensamento grego e a sua coroação no pensamento ocidental, sob as linhas, sem dúvida, criadoras e analíticas da Escolástica.
Não sou escolástico nem neoescolástico, porque sigo também outras ideias, aparentemente afastadas, mas que conciliam, numa síntese, aquele pensamento com o que provém do pitagórico-platônico, fato que exponho e demonstro em meus livros.



Missão da Filosofia na vida cultural brasileira hodierna.


Mário Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o início. Parto da posição pitagórica:Pitágoras, diz-se, afirmou que era um amante da Sabedoria (sophia), da suprema Sabedoria, que cointuímos com a própria Divindade. Este afã de alcançá-la, os esforços para atingi-la, os caminhos que percorremos para obter essa suprema instrução (daí chamá- la de Mathesis Megiste, que é a suprema instrução), todo esse afanar é propriamente a Filosofia.
Assim, posso admitir que há vários caminhos, embora só haja um caminho real. Como fundamentava Pitágoras, repetido depois por Aristóteles, que a única autoridade na Filosofia é a demonstração, sendo que esta deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e até exclusivos, a Filosofia construída deste modo só pode ser uma: positiva e necessariamente concreta, que é a posição que tomo aqui.
Podemos viver o universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as ideias vindas de todas as partes, que não possa encontrar um caminho para si mesmo; temos de criar este caminho. A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de ideias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial.



“O aparente abismo hodierno entre Filosofia e ciência pode perfeitamente ser ultrapassado,

flanqueado pela Filosofia Concreta; é o que estamos fazendo com as nossas obras,
apesar de muitos julgarem ser impossível a um brasileiro tentar fazê-lo.”
Reprodução


Que fazer para que a Filosofia atinja as grandes massas populares e a juventude brasileira?

Mário Fazer a Filosofia atingir as grandes massas populares será, em primeiro lugar, obra que se cingirá a descê-la ao baixo grau de cultura de nossas massas populares. Precisamos estudar o que devemos fazer para erguê-las até à Filosofia, o que só poderá ser feito através de um desenvolvimento da cultura nacional — em linhas distintas das atuais, que tendam à Filosofia Positiva e não à Filosofia negativista e niilista que penetra em nossas escolas.
Quanto à juventude brasileira, este é o mais grave de nossos problemas: somos um país constituído de jovens, que formam a sua quase totalidade. Dado o baixo grau de cultura que temos, nossos estudantes passam a formar uma elite intelectual, o que demonstra a inferioridade em que nos encontramos. Na História, a juventude sempre é o que decorre da sua própria natureza, apresentando aspectos positivos e negativos. Positivos, pela sua capacidade de ação e de idealismo; mas negativos, pela sua irreflexão, pelo seu despreparo e apressamento, que a leva a cair, facilmente, nas malhas dos grandes agitadores e a servir aos interesses de demagogos e políticos. Em todas as épocas da humanidade, uma parte da juventude mais ativa tendeu à luta a favor das más causas, facilitando-as. Foram jovens que destruíram o Instituto Pitagórico, condenaram Sócrates, perseguiram Anaximandro, Aristóteles, assassinaram Hipátia de Alexandria e perseguiram Santo Alberto, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, quando mestres na Universidade de Paris; que uivavam pelas ruas pedindo a cabeça de Dante, de Savonarola, de Giordano Bruno; que acusavam Pasteur de “charlatão” e atiravam pedras em Einstein. Esses jovens são ativos, eficientes na sua parte destrutiva. Mas há também uma juventude construtiva. Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará resultado.



Quais são as correntes filosóficas que a reflexão filosófica deve levar em conta hoje?

Mário Propriamente, julgamos que todas, porque encontramos hoje, na reflexão filosófica, a restauração ou o ressurgimento de velhos erros já refutados há séculos e milênios, que passam por inovações extraordinárias para aqueles que ignoram as aquisições do passado. É necessário, assim, revisar tudo, para mostrar que muitas novidades atuais nada mais são que velhos erros já refutados, travestidos de “verdades superantes”.

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