quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mário Ferreira dos Santos - entrevista - parte II


Mário Ferreira dos Santos



Mário O grande (desconhecido) Filósofo Brasileiro



(continuação.  primeira parte da entrevista: http://timbrevivo - parte I)

Relação Ciências e Filosofia (dados do progresso das ciências experimentais imprescin íveis para a reflexão filosófica ).

Mário Como a pergunta exigiria uma análise longa, sintetizar aqui o que penso, torna-se, para mim, um trabalho mais difícil do que expor as grandes contribuições que a ciência traz para as novas especulações filosóficas. Não que esta venha modificar as linhas mestras da Filosofia Positiva e Concreta; veio, ao contrário, robustecê-las, mas trouxe contribuições que permitiram abrir campo não só para novas análises, como também para melhor colocação de outros problemas, além de uma revisão da Metodologia, sobretudo na parte da Dialética Concreta. Tratase da Dialética que possa de melhor modo aplicar-se à análise especulativa, para que ela não se torne meramente abstrata e sem correspondência com a realidade concreta. Basta que salientemos três pontos importantíssimos da ciência moderna. Primeiro, as pesquisas em torno da estrutura da matéria sensível, que levaram a ciência a penetrar na constituição da matéria, afastando-se o conceito de matéria do século dezenove. Temos, assim, uma visão muito mais profunda e ampla do que aquela que os filósofos anteriores possuíam, também a Filosofia Positiva de séculos anteriores, aproximando-se a passos gigantescos da concepção que os pitagóricos haviam apresentado, e que fora considerada por muitos como extravagante, tornou-se muito mais compreensível. Naturalmente, se alguém considera que o número é apenas o da matemática vulgar, o da extensão, da quantidade, ou o esquema da participação quantitativa, é lógico que a definição pitagórica de que as coisas são números passa a ter um sentido demasiadamente brutal e inaceitável. Mas no momento que se compreender que número não é apenas isso, mas todo o esquema de participação de qualquer espécie de unidade, porque é a manifestação da unidade sob todos os seus aspectos e, portanto, sob todas as formas manifestativas em que se exija o numeroso e, portanto, participado, participante e logos da participação e que, segundo o logos, existem tantos números quantos logoi de participação, já muda completamente o sentido e então poder-se-á compreender que, segundo todos os possíveis aspectos em que se possa tomar a unidade, podemos construir matemáticas. A ciência moderna, graças à penetração da Matemática, de início na parte quantitativa e depois no qualitativo — como se viu nas graduações — e nos relacionais — como se vê nos funtores — caminha hoje, inevitavelmente, para uma penetração cada vez maior no caminho que já fora percorrido pelos antigos pitagóricos.

O progresso científico processou-se e firmou- se na medida em que a ciência se matematizou; a ciência, por outro lado, separouse da Filosofia, não devido a essa matematização, mas em virtude dos filósofos, que não compreenderam bem essa matematização, que deveria ter permanecido no campo da Filosofia Positiva, se realmente fosse concreta. Por isso, o aparente abismo hodierno entre Filosofia e ciência pode perfeitamente ser ultrapassado, flanqueado pela Filosofia Concreta; é o que estamos fazendo com as nossas obras, apesar de muitos julgarem ser impossível a um brasileiro tentar fazê-lo.

Segundo, ainda no campo da pesquisa da estrutura da matéria, a descoberta das tensões, sobre as quais os físicos modernos, estarrecidos ante a sua realidade, procuram escamoteá-la, sem poder enfrentar, devidamente, a implicância que a aceitação desta realidade exigiria, e que os levaria a uma especulação filosófica para a qual não estão preparados.

A terceira contribuição importante é a referente à genética, que dá novos subsídios para a melhor compreensão do homem, para novos estudos antropológicos e uma nova reflexão em torno da significação do ser humano.

Poderíamos citar inúmeros outros aspectos, que também são imprescindíveis para a reflexão filosófica. Aliás, são tantos, que não caberiam, naturalmente, no espaço que temos para responder. O que queremos apenas salientar é que devemos compreender que, das causas às leis e aos princípios de cada ciência, podemos alcançar uma sabedoria que está acima de toda ciência, uma sabedoria como a estudaram os grandes pensadores de todos os tempos, que é a “Décima Ciência” dos antigos, de que nos falava São Boaventura.

Essa Ciência, cabe-nos construí-la; será a metalinguagem do homem, unindo todos os especialistas numa visão global. Essa construção é a nossa grande tarefa atual, para que possamos aproveitar as grandes contribuições da ciência na elaboração de uma visão filosófica mais completa, mais perfeita 

e mais atuante apara um melhor futuro da humanidade. Assim abriremos campo para novas análises, não mais as que colocavam mal as questões, de modo a torná-las, por isso mesmo, insolúveis e estéreis suas disputas, mas lançando novas disputas num campo mais fértil, mais criador, sob aspectos mais seguros, que poderão abrir ao homem novas perspectivas, com dados extraordinários, em benefício da cultura do homem de amanhã. É diante deste horizonte, ante esta aurora que se anuncia, que me anima o que tenho realizado, muito embora eu não seja compreendido por muitos daqueles que se dizem amantes dessa sofia, a Matese, a sabedoria, a intuição sapiencial.

Posso, agora, completar a minha resposta ao item IV , dando, assim, o sentido da reflexão filosófica que se pode atribuir ao pensamento brasileiro, se ele quiser ser genuinamente filosófico. Todos aqueles que, no Brasil, revelaram que possuíam mente filosófica — e não foram muito numerosos, porém brilhantes — tenderam sempre para um pensamento de caráter sintético, isto é, não ficaram totalmente presos Às correntes filosóficas europeias e dependentes delas. Sempre houve, entre nós, o desejo de abarcar o universal e esta característica é naturalmente justa e própria de um povo que vive em si mesmo este universal. Por isso, o Brasil é, dos países atualmente existentes, mais capacitado para uma Filosofia universalizante ou, pelo menos, para uma nova linguagem filosófica, capaz de unir o pensamento que divergiu tão profundamente no campo já esgotado do pensamento europeu. Aqueles que não pensam assim, que não admitem essa possibilidade para nós, que continuem vivendo o seu modo de pensar. Nós preferimos, porém, divergir.



“A heterogeneidade nas modalidades de filosofar surge nos períodos de predominância do empresário utilitário no contexto de uma cultura. Quando este predomina, prevalece a moda que penetra em todos os setores: na Filosofia, na Arte etc.”
Joel Lobo

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