domingo, 4 de novembro de 2012

Mário Ferreira dos Santos III Parte da Entrevista


Colaboração da Filosofia para humanizar a civilização.





Mário Esse item pode-se dividir em três: 1º) a humanização da civilização atual; 2º) a evidenciação do valor da pessoa humana e 3º) a contribuição para a paz interior e felicidade do homem.





Primeiro: hoje, sobretudo no mundo livre, graças ao surgimento de um desejo humanização da civilização pode ser obtida — em parte, naturalmente — pela colaboração da Filosofia, pela revisão honesta de todos os grandes autores do passado, que foram caricaturizados, falsificados e apresentados num sentido que não é realmente o da sua Filosofia. Poderíamos citar aqui, desde os pitagóricos até o século passado, autores que precisam ser revisados e reestruturados, para evitar-se aquelas “fables convenues”, aquelas mentiras históricas, os mitos e as interpretações falsas que se fazem da sua obra, com o simples intuito de denegri-los ou de favorecer outras posições. Devemos tomar a seguinte posição: procurando primeiro tudo o que nos une, depois pensemos em estudar o que nos separa, para ver se o que nos separa, pode sofrer modificações ou acomodações, que permitam que aquilo que nos une, fomente a humanização da própria civilização. Daí decorreria, pois, inevitavelmente, a segunda parte, sobre o valor da pessoa humana que, sem dúvida, sofreu, neste século, devido ao desenvolvimento dos totalitarismos, uma afronta à sua dignidade. De todos os lados surge este tema, que pode e deve ser reestruturado em termos positivos e concretos. Finalmente, resultaria, então, a terceira parte, porque a paz, a tranquilidade interior, a serenidade do espírito só podem ser alcançadas quando a mente assenta plenamente na Sabedoria, alcançando aquelas verdades, que estão ao nosso alcance e que são o fundamento de nossa verdadeira felicidade.

Seguimos em suma, o preceito de Pitágoras: “Ama a verdade até o martírio; não ames, porém, a verdade até à intolerância”! Procurando o que nos une realmente com todas as outras correntes e posições filosóficas, podemos abrir caminho para uma compreensão nos aspectos em que encontramos diferenças, que, muitas vezes, são apenas acidentais e não aptas a justificar uma separação profunda. Esse já seria um caminho de maior aproximação entre os homens, porque, na medida em que nos dedicamos à leitura dos textos, vamos compreendendo a ação nefasta dos intermediários. Sabemos que, na Filosofia e temos milhares de exemplos para citar, os intermediários, os discíadmirapulos, em regra geral, falsificam a obra dos mestres segundo determinados interesses. Os adversários caricaturizam segundo outros interesses, e o resultado é a deformação total do verdadeiro pensamento do autor. A obra apresentada de segunda, terceira ou quarta mão está completamente desfigurada, o que permite ao autor um ataque fácil, pois não é difícil destruir caricaturas. Há casos, na Filosofia, em que autores tiveram suas obras refutadas antes de as terem publicado, eram, pois, obras conhecidas só pelo autor. Muitos livros meus foram “refutados” antes de serem publicados, pelo simples fato de eu pretender tratar de tal ou qual matéria. Sem nem ao menos saberem qual a minha verdadeira posição num assunto, já havia adversários para refutá-los. Não em público, porque isso eles não têm coragem de fazer, mas nos “corredores”.


“Sem uma visão transcendental da realidade não pode haver Filosofia, porque se esta se distingue da Ciência por dedicar-se esta ao estudo das causas próximas e a Filosofia às causas primeiras e últimas, fatalmente esta deverá ter uma visão transcendental da realidade ou, pelo menos, tocá-la, abordá-la.”

A filosofia nacional e o pensamento filosófico estrangeiro.

Mário Quando hoje se visita Portugal e se vê qual a atitude predominante neste país em relação ao seu patrimônio filosófico, espanta verificar a completa ignorância sobre o que de grande já se realizou na Filosofia Portuguesa. Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos séculos XV, XVI e XVI . Parece que Portugal nada realizou; desconhece-se que, por quase dois séculos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo. Desconhecem-se autores como: Petrus Hispano; Antonio a Santo Domínico, O. P., Francisco Suárez, S. J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber, além dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja formação intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O. S. A., e Egídio da Apresentação, O. S. A, Andréias de Almada, S. J.; Ludovico de Sotto Mairo, O. P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O. S. A; Hieron; Francisco da Fonseca, O. E. S. A.; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O. Serrão, S. J.; Ferdnando Peres, embora nascido em Córdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Mol ina , S. J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi discípulo de Pedro da Fonseca, S. J., o Aristóteles português; Petrus Luís, S. J.; Antônio Carvalho, S. J.; Baltazar Álvares, S. J.; Hieronimus Fernandes, S. J.; Gaspar Gonçalves, S. J.; Ludovicus de Cerqueira, S. J.; Gaspar Vaz, S. J.; Diogo Alves, S. J.; Francisco de Gouvêa, S. J.; Ferdinando Rebelo, S. J.; Gaspar Gomes, S. J.; Benedictus Pereira, S. J.; Sebastião de Couto, S. J.; Blásio Viegas, S. J.; Emanuel de Góis, S. J.; Cosmas de Magalhães, S. J.; Pedro da Orta, S. J.; João de São Tomás, O. P., para citar apenas alguns; Portugal nos deu esta floração de filósofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e outros, porque correspondem à atual maneira de filosofar no mundo moderno.

Pergunta-se: Pode-se falar numa Filosofia de Portugal ou apenas numa Filosofia emPortugal?
Respondo: Pode-se falar, sim, numa Filosofia de Portugal e também numa Filosofiaem Portugal.

Nós, brasileiros, contudo, por um espírito de colonialismo passivo, que nos domina até hoje, não cremos em nós mesmos. Só damos valor àquilo que tem origem estrangeira, e não seja de Portugal, porque também esta procedência não goza de nossa admiração. É natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifestações de completa descrença. Não acreditar que ela existe, nem tampouco que possa surgir, é atitude geral. Ainda hoje, “famosos professores de Filosofia” em Portugal dizem que é impossível criar-se uma Filosofia autóctone naquele país. Para o português, o que vale é: “Penso, logo não existo” ou “Existo, logo não penso”. Podemos dizer que existe uma Filosofia no Brasil, mas se quiséssemos realmente falar numa Filosofia do Brasil, tal afirmação exigiria exame. Não conhecemos obra de criação propriamente peculiar. Se estamos tentando realizar algo nesse sentido, não podemos afirmar, por motivos óbvios, que o seja. Podemos dizer que, pela nossa completa libertação de um passado metafísico, filosófico, histórico, que pese sobre nós e entrave as nossas possibilidades de ação, estamos em condições de criar uma Filosofia Ecumênica, uma Filosofia que seja realmente a Filosofia, por entre os muitos modos de filosofar.

A heterogeneidade nas modalidades de filosofar surge nos períodos de predominância do empresário utilitário no contexto de uma cultura. Quando este predomina, prevalece a moda que penetra em todos os setores: na Filosofia, na Arte etc., como acontece no mundo atual. Esta variação tremenda de ideias, as quais surgem de todos os lados, não revela nenhuma pujança; é, ao contrário, um índice de fraqueza, como a do período final da cultura grega e alexandrina. AFilosofia Positiva (fundada na positividade do ser, que alcança a perenidade, porque atinge as leis eternas) e Concreta, precisamente, porque, captando estas leis, relaciona todos os matizes de todos os aspectos formais — para dar-lhes uma unidade superior — é necessariamente Concreta, embora não no sentido vulgar do termo. A Ciência, felizmente, conseguiu libertar-se da moda, como o fez a Matemática; por isso, como se construiu uma Matemática, uma Ciência, também se pode construir uma Filosofia.

Em que o pensamento brasileiro pode beneficiar-se do pensamento filosófico estrangeiro; reunindo o que há de positivo em todas as grandes realizações, provenham de onde provierem, construindo, depois, uma nova concreção e oferecendo-a ao mundo.

Esta é a única possibilidade que nos cabe e que estamos em condições de realizar, muito embora a maioria de nossos intelectuais não creia nisto e negue, terminantemente, que tal seja alcançável por nós, açulando-se com sanha contra quem tentar fazê-lo.

outros trechos da entrevista encontram-se aqui:

http://timbrevivo.blogspot.com.br/p/colecao-mario-ferreira-dos-santos.html

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