domingo, 25 de novembro de 2012

Série de estudos: Conceito de Metafisica


Mário Ferreira dos Santos



Artigo 1 CONCEITO DE METAFÍSICA


Muito tempo depois da morte de Aristóteles, Andrônicos de Rhodes, no século I da era cristã, tendo editado uma série de fragmentos das obras do peripatético, que não constavam das edições anteriores, acrescentou, logo após a "Física", certos estudos, intitulando alguns de tá meta tá physiká, isto é, "escritos que sobrevêm ao livro da Física".


Como os objetos de que tratava esse livro não eram propriamente os do mundo sensível, como os da física, mas transfísicos, as palavras gregas foram latinizadas em "metaphysica", nome finalmente que tomou a disciplina filosófica, cujo objeto são os entes transfísicos, como se depara claramente nesta famosa definição de Tomás de Aquino: "Chama-se (esta ciência) de metafísica, isto é, transfísica, porque ela se apresenta após a física e temos de nos elevar, a partir das realidades sensíveis, às realidades que não o são."

Essa delimitação clara do conceito e da actividade metafísica nem sempre foi bem compreendida. Analisemos a definição tomista.

1) é transfísica, pois aborda, estuda e examina entes não físicos;

2) em sua atividade deve partir das realidades sensíveis.

Este segundo elemento é de magna importância. A metafísica deve partir das realidades sensíveis para alcançar as realidades não sensíveis.
Ora, as realidades sensíveis, objeto das ciências, pertencem ao mundo do imanente, permitem que sobre elas se construam juízos de existência.

As realidades transfísicas, por não serem sensíveis, ultrapassam o campo da imanência, portanto transcendem-no, são, pois, transcendentes. Se no mundo da imanência, mundo da ciência, podemos construir verdades materiais, fundadas no sensível, no mundo da transcendência, as verdades serão transcendentes, portanto, metafísicas.

Mas desligar-se a metafísica, como estudo do transfísico, das realidades sensíveis, será criar uma "crisis" (abismo, separação) entre um mundo e outro. A metafísica seria um afastar-se deste mundo, um desinteressar-se deste mundo, o que não propôs Tomás de Aquino, pois indicara como ponto ético do metafísico: partir das realidades sensíveis.

E veremos em breve, como será fácil demonstrar, que, por não se ter considerado assim, a metafísica conheceu uma forma viciosa, o metafisicismo, que pairou apenas no terreno das lucubrações transfísicas, sem procurar e sem considerar as ressonâncias necessárias que elas deveriam ter e encontrar nomundo sensível.

Vê-se, desde logo, que reivindicamos à metafísica um sentido dialético, em oposição à maneira viciosa de alguns metafísicos menores, que pensaram que, para ser tais, precisariam desligar-se totalmente da realidade sensível.

Serve esta advertência para que desde logo se patenteie que a posição de muitos opositores à metafísica encontra fundamento apenas na ação dos metafísicos menores, como o estudo desta importante disciplina logo revelará.
Observa-se desde início, que a metafísica não é uma construção sobre o vácuo, nem é apenas um discursar sobre conceitos inanes, vazios de conteúdo real, formas que expressem nossos desejos, nossos ímpetos ou a nossa ignorância, como, porventura, tantas vezes se tem dito e repetido.

O ponto de partida da metafísica é o das diversas realidades. Essas mesmas realidades sensíveis podem ser consideradas metafisicamente, isto é, pelo emprego de um método analítico metafísico, que procuraremos, no decorrer de nossos trabalhos, tornar o mais dialético possível. Esta a razão por que de antemão (fazemos questão de salientar) nos opomos decididamente ao divórcio criador entre a ciência e a metafísica, pondo uma ao lado da outra como se representassem, uma o pólo da realidade, e a outra, o pólo da irrealidade. E o gesto displicente ou o sorriso irônico dos metafísicos para com os cientistas, ou destes para com aqueles, compreende-se apenas como produto de uma mútua incompreensão, que serviu somente para criar uma crise no saber teórico, no saber epistêmico.

Se este se distinguiu em diversas disciplinas, não deveria tal distinção considerar-se como uma separação real, pois ainda mostraremos que esta é falsa, e a ciência e a metafísica poderiam cooperar, como na realidade cooperam, pois a ciência é, cm certo modo, metafísica, como a metafísica é, por sua vez, ciência. Portanto, a metafísica não é nem deve ser considerada totalmente à parte da ciência, mas o arquitetônico desta, um projetar-se desta além do seu âmbito, não considerando apenas como metafísica o que a ciência ignora, como o propõem alguns, mas o que não cabe à ciência, com seus métodos, tratar, e que não implica, por isso, negação.
Desde o momento que a ciência reconheça os seus limites, afirmará ela dialeticamente um além. E se esse além escapa aos estudos e aos métodos empregados pelas ciências experimentais, não deve ser desprezado ou abandonado pelo homem.
O reconhecimento do limite é um apontar dialético para o que fica além do limite. E toda a dignidade da ciência está em respeitar esse limite, que aponta para a fronteira entre dois mundos de realidade, que implicam, por sua vez, métodos diferentes, mas análogos. Reconhecer tal contingência é da dignidade do sábio. E aqui servem perfeitamente estas palavras de William James:

"Não pergunteis a um geólogo o que é o tempo: isto o ultrapassa; nem a um profissional da mecânica como são possíveis ações e reações: ele não poderá tratar delas. Muito tem a fazer um psicólogo sem se ocupar da questão de saber como pode ele e as consciências que ele estuda conhecerem um mesmo mundo exterior. Há bastantes problemas que não existem debaixo de certos pontos de vista, os quais, sob outro ponto de vista, são problemas essenciais, e os quebra-cabeças da metafísica são os problemas mais importantes que existem para quem quiser penetrar a fundo na íntima constituição do universo visualizado como um todo." (Psicologia)

Encontram todas as ciências em seu objeto uma zona que escapa em grande parte ao seu âmbito, e aponta o que fica além, como a física ante o problema do movimento, das ordens energéticas, etc, como a matemática ante o número, e a psicologia ante o problema da alma, e a biologia ante o davida. Estão estes grandes problemas a apelar constantemente ao filósofo que trate deles. E o próprio cientista, quando se põe a examiná-los, torna-se filósofo, e suas hipóteses são quase sempre metafísicas.
Mas se encontramos tais pontos de convergência entre a ciência e metafísica seria primarismo considerar que ambas se confundissem plenamente.

Ciência e Filosofia, incluindo esta a Metafísica, são disciplinas de ordens diferentes.
Se a ciência tem por objeto o mundo sensível; a metafísica tem o transfísico. Conseqüentemente, os métodos têm de ser diferentes, mas análogos. E dizemos análogos, porque a analogia é uma síntese da semelhança e da diferença. E se por trabalhar com entes corpóreos, pode observá-los sensivelmente e experimentar com instrumentos físicos, o que não o pode a metafísica, precisa ainda trabalhar com a razão, com a lógica, nu a logística, ou a dialéctica, para procurar o nexo que liga os fatos uns aos outros, e elaborar suas teorias. (NA: Teoria em grego, visão do que se encadeia. Chamavam os gregos de teorias as colunas de crentes que em suas festas religiosas, vinham unidas até os templos. Como havia entre eles um nexo que os ligava, a palavra metaforicamente, passou a significar todo o nexo que encadeia uma série de fenômenos ou idéias).

Não é a Metafísica um penetrar em um mundo onde devemos nos despojar de todos os instrumentos deste, e que, neste, permita-nos obter conhecimentos. O modo de raciocinar metafísico é o mesmo que o do cientista.
E este, quando medita sobre as coisas do mundo físico, tange sempre, quer queira ou não, o terreno da metafísica que o cerca, exigente a solicitar-lhe soluções, que ele muitas vezes lome afrontar, retirando-se a uma posição agnóstica, que é uma verdadeira renúncia à dignidade do saber humano.

Basta considerarmos a situação do físico ante as teorias sobre o átomo que muitas vezes são um desafio à inteligibilidade, como a ação à distância, a substancialidade da energia atômica, as contradições entre ondas e corpúsculos, e muitas outras, que enleiam o cientista em especulações metafísicas, porque já tange objetos supra-sensíveis, ultra-experimentais, ou metempíricos, como se costuma hoje dizer.
Mas como penetrar neste terreno se, à sua entrada, temos de deixar todos os instrumentos caros, que a experiência havia corroborado como eficientes?
Que garantia temos de que nossas especulações sejam bem fundamentadas? Se não dispomos dos sentidos para fortalecer a parte intuicional dos nossos conhecimentos, mas apenas nossos raciocínios lógicos e dialécticos, como podemos adquirir aquela segurança que sentimos ter quando, no laboratório, experimentamos ?
É por isso que desde logo surge ao metafísico um problema importante: o problema crítico. Precisamos realizar a crisis, análise aprofundada de nossos meios de conhecimentos.

Chamavam os gregos de kriterion a pedra de toque com que se avaliam os metais preciosos. E a palavra critério passou para a filosofia como a "pedra de toque" que permite avaliar o valor dos nossos conhecimentos.
E de critério surgiu Criteriologia, a disciplina que estuda o valor dos nossos conhecimentos e dos meios empregados. (NA: Também a chamam Crítica, Noética, Lógica materialis, Ideologia, etc. O nome Criteriologia surge por influência de Kant -Kritik der reinen Vernunft — Crítica da Razão Pura.)

Preâmbulo da metafísica para alguns, implica a Criteriologia o estudo da Gnoseologia (de gnosis, conhecimento), ou Teoria do Conhecimento.
Ponto de partida fundamental, é ante ele que os filósofos vão tomar duas posições:

1) a dos que a estudam, analisam, examinam, depuram, a fim de penetrar no campo da metafísica; e

2) a dos que aí se detêm por considerarem que toda metafísica nada mais é que o estudo crítico desses mesmos meios de conhecimento. Desta forma, a metafísica se reduz a uma filosofia crítica, como o fêz em parte Kant.
Mas se a primeira posição é afirmativa quanto às nossas possibilidades, a segunda é negativa, e reconhece que não temos meios de penetração segura no transfísico.
Então, ou nos detemos ou avançamos. Mas se uns se detêm, outros avançam. E nós escolhemos essa peregrinação que nos levará ao desconhecido.
Incognoscível eternamente ignorável, exclamam alguns. Somos incapazes de ir além da inteligibilidade, exclamam ainda!

Mas afirmar a incognoscibilidade é conhecer que há incognoscibilidade. Nunca pode o espírito humano furtar-se à afirmativa, mesmo quando nega, porque quando procede assim, apenas recusa, o que é ainda um modo de afirmar. Negar que não se sabe é afirmar que se sabe que não se sabe. E se sabemos que não sabemos ou sabemos que sabemos que não sabemos é sempre afirmar um saber.
É ainda da nossa dignidade confiar em nós mesmos. É fácil fugir ao encontro com o que se oculta. Mas nosso valor está em desafiar as sombras.
E entre esses que não temeram, surgiu a mais arquitetônica das ciências do homem: a Metafísica.

Mas examinemos as razões de uns e de outros.

Que pretende a metafísica? Saber como são os entes? Não, pois isto cabe à ciência. Saber por que são e o que são? Sim; e mais ainda; de onde vêm e para onde vão. E não é só; há ainda muito mais.

Metafísica não é apenas "um esforço invencivelmente obstinado de pensar com clareza e coerência" (William James) nem tampouco "a ciência das razões das coisas" (Dalembert), nem o inventário sistemático ordenado de tudo o que possuímos pela razão (Kant), nem apenas " a ciência do ser enquanto ser" (Aristóteles), definição restrita à ontologia, ou metafísica geral.
Uma ciência do incondicionado, como já o estudamos em "Filosofia e Cosmovisão"? Não, porque o condicionado também é objeto fundamental, como ponto de partida da metafísica.

metafísica é:

a) ciência do ser enquanto ser, e temos a Ontologia ou Metafísica geral;
b) que usa métodos não experimentais para suas especulações, os quais se fundam, analogicamente, na realidade, como a lógica, a logística e a dialéctica;

c) examina o conhecimento e o critica em busca de um critério seguro;

d) especula sobre a origem e fins de todos os entes e das relações deles entre si, e com o ser, sob todos os aspectos. (NA: São de Rohner estas palavras: "O problema fundamental da metafísica é o problema do ser. Quem quiser reduzir a um todos os problemas que podem ser tratados e hão de se tratar numa metafísica profunda, encontra-se por último com o problema do ser. O ente (ens), do qual se trata em tal problema, é o ser real.")

Veremos claramente, ao discutir o problema do ser, que é o ser real o que constitui o problema da Metafísica, e não talvez o ser ideal, ou o ser possível, ou o ser puramente de razão (eus ratiorcis), nem tampouco o ser imaginário. De onde concluiremos que o ser real fundamenta todas as outras classes e acepções do ser nos conteúdos e objetos de nossos conhecimentos. Dessa forma, o problema fundamental da Metafísica é o problema do ser real". (Das Grundproblem der Metaphysik", cit. por Fuetscher).

Assim a metafísica trata do ser real, sem desinteressar-se também das essências. E não, propriamente, do ser ideal, como os caricaturistas da Metafísica o pensam.
Conseqüentemente, a Metafísica é a ciência que estuda o ser enquanto ser, o ser em suas relações e determinações, e os meios de conhecê-lo, tanto em suas origens, como em seus fins.



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