terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O ocaso do oportunismo político na Pontifícia Universidade Católica



Por: Francisco Razzo
É interessante tomar consciência de que a “práxis política” se determinada muito mais pelo apego irracional ao imaginário nostálgico de certas fantasias históricas do que pela efetiva capacidade da “razão” mediar intrincadas relações e disputas entre os homens. A distinção política “direita” e “esquerda” já não ajuda muito, uma vez que tende a fornecer “chaves” quase que absolutas de compreensão puramente abstrata, e não a descrição genuína das experiências reais de uma consciência pessoal diante de seus dilemas políticos. Nesse sentido falar em “direita” não é outra coisa senão buscar a unidade conceitual para descrever o apego irrestrito do imaginário simbólico às instituições, enquanto que “esquerda” descreve o apego do imaginário simbólico às revoluções. Um vive a tradição o outro, por consequência lógica, a sua negação. Portanto é equivocado buscar resolver batalhas políticas à luz de dois conceitos irredutíveis.
Os “manifestantes da PUC”, isto é, toda comunidade envolvida (funcionários, alunos e, principalmente, alguns professores) nos atos contra a nomeação da nova reitora perderam, não sei se por falta de tentativa, mas certamente por falta de boa estratégia, a excelente oportunidade em relação à possibilidade de estabelecer aproximação com a Igreja Católica. Não no sentido de aceitar “dogmas” do catolicismo enquanto “conversão religiosa”, mas no sentido de lembrar que a própria PUC – Pontifícia Universidade Católica – é propriedade particular da Igreja Católica. O que está em jogo é o inequívoco embate entre valores católicos, como condição de existência de uma Universidade Católica, e valores não católicos, expressos por aqueles que de alguma forma não se sentem à vontade em viver de acordo ou, no mínimo, respeitar a existência da presença da religião e, no caso em questão, da Igreja Católica se intrometendo na vida da universidade.
O ocaso do oportunismo político na Pontifícia Universidade CatólicaUm exemplo mais brutal disso foi levar Zé Celso Martinez e suas agressões gratuitas no “Pátio da Cruz” ao coração da universidade católica: “O movimento político da PUC ficou forte e vai tocar o mundo. O papa é um ditadorA Igreja castra e o catolicismo é antropófago”. “O Vaticano tem que entrar pelo cano! Chega!”. Outro erro foi levar as Católicas pelo Direito de Decidir e tantos outros pequenos atos expressos em discursos inflamados e cartazes com dizeres estúpidos e ofensivos categorizando e reduzindo os problemas reais que a universidade vem enfrentando ao longo dos últimos anos em meras diferenças e opções ideológicas. Os responsáveis por essas manifestações “culturais” são, na verdade, grandes irresponsáveis. Ninguém que conheça Zé Celso, por exemplo, esperaria menos dele, e é muito improvável que a ideia tenha partido de algum aluno. O esvaziamento da responsabilidade política é diretamente proporcional a sua estetização, e nada é mais medonho do que a constrangedora tentativa de justificação do ato de Zé Celso do que o apelo a uma suposta e embaraçosa “erudição” crítica.

Entretanto, não é possível “lutar pela PUC” e estar contra a Igreja Católica. A consequência inevitável da luta da “comunidade acadêmica” contra a Igreja a fim de lutar pela “PUC” é contraditória nos próprios termos. Pensemos na possibilidade de a Igreja, proprietária da PUC, acatar aos pedidos dos “manifestantes” e se retirar da “PUC”. A “PUC” imediatamente deixaria de ser Pontifícia Universidade Católica para se tornar qualquer outra universidade particular. Isso pra colocar na ponta do lápis apenas os prejuízos em relação ao patrimônio histórico e simbólico, sem levar em consideração as questões do patrimônio físico. O interesse dos grevistas pode ser legítimo em querer derrubar a nova reitoria, por acreditarem honestamente que a nomeada não seja a administração ideal ou por ter ferido alguma expectativa em relação ao processo de votação, mas o último lugar era bater no sentimento religioso de toda tradição da Igreja envolvida, já que a PUC é patrimônio não do Brasil, como disse a Marilena Chauí em incendiada palestra para os alunos, mas da Igreja Católica e sua relação com parte da história do Brasil. Temer que a PUC defenda “valores católicos” é assinar o estado mental de completa falta de senso de realidade. O pressuposto de que exista “democracia direta” para as eleições da reitoria na universidade é absolutamente falso e se fundamenta na nostalgia vazia de que fazer isso era verdadeiramente participar da “legítima tradição da PUC” ou de algum direito conquistado na história de luta pela democracia no país.
Apegado a diretrizes derivadas de fantasias ideológicas, esqueceram que a Igreja Católica não começou a fazer política ontem ou há trinta anos, mas há dois milênios. A PUC não é uma espécie de aventura da Igreja em negócios de ensino. A Igreja Católica inventou a concepção de universidade no Ocidente lá no século XII  e está nisso há novecentos anos (Cf. RÜEGG, W. A History of the University in Europe, obra em 4 volumes). Há consequências graves ao evocar o compromisso com a tradição. Os critérios que movem a concepção de política católica nunca são medidos pelo imediatismo da história, visto que nos referimos a uma instituição, talvez a única instituição no mundo, que se mantem firme há dois mil anos. Podemos acusar Cardeais, Bispos, párocos ou qualquer fiel membro da Igreja de cometerem erros, e erros graves, como qualquer humano falível tem a possibilidade de cometer, entretanto seus erros devem ser medidos, pelo menos a fim de serem compreendidos num primeiro momento, pela experiência religiosa nas quais estão envolvidos. Não adianta acusar um membro da Igreja Católica, sobretudo um Cardeal, por não ser “democrático”, pois não é mesmo. A Igreja não pensa “democracia” como a finalidade da vida política, quando muito “democracia” não passa de um meio, entre outros, para resolver alguns assuntos iminentemente práticos. Meios podem ser substituídos, são instrumentos, fins são horizontes insubstituíveis. A “democracia” é um instrumento político como qualquer outro e como tal não dá conta sozinho dos grandes dilemas e impasses políticos.
Ou o discurso em nome da democracia aceita que há distinções profundas entre cosmovisões – o que chamamos de pluralismo – ou partimos para o confronto direto. Uma democracia instrumental pressupõe a coexistência de cosmovisões, a democracia enquanto fim, pelo contrário, precisa se impor como única cosmovisão aceitável. A fragilidade da democracia está em fazer dela o fim absoluto da atividade política e não um mero instrumento. E não adianta derivar a concepção de democracia da metafísica de algum filósofo moderno ou iluminista radical. A Pontifícia Universidade Católica é uma instituição “privada” e “católica” da qual não necessita derivar sua política interna de postulados democráticos puramente políticos ou reduzidos a metafísicas declaradamente anticatólicas. Se o faz, sejamos honestos, é por referência e exigências de um velho contexto da história política no Brasil, porém não da concepção de universidade e política derivadas da própria Igreja.
Infelizmente os “manifestantes” meteram os pés pelas mãos por imaturidade política, justamente por se apegaram ao vestígio da imagem nostálgica dos movimentos revolucionários brasileiro no contexto da ditadura militar. Certamente há muita gente temendo alguma espécie de “retorno de caçada às bruxas” dentro na universidade, como se a Igreja Católica fosse apertar o cerco contra aqueles dos quais dela discorda ideologicamente. Evidentemente isso é maluquice. O problema é justamente o oposto. Gritos de guerra como “Igreja é lugar de oração, a PUC é nossa” só demonstram o quão distante da realidade esse tipo de imaginário político se esforça pra se manter, pateticamente, vivo. Chamaram para si a responsabilidade de falar em nome da “democracia direta” instituída tradicionalmente pela PUC? Mas o que significa “lutar” pela democracia: insultar, violentar ou até impedir o funcionamento de uma universidade que não reza a cartilha da ideologia democrática? A democracia pressupõe aceitação imediata, e por isso não democrática, de certos postulados. E se pressupõe aceitação imediata daquilo “que a maioria determina imediatamente”, então é preciso lembrar que isso nunca foi simples e muito menos é evidente de que a melhor coisa para uma universidade seja adotar esse tipo de concepção na regência de sua administração. Na verdade, a politização da universidade é o ocaso de toda formação universitária genuína. A Pontifícia Universidade Católica nunca foi uma instituição puramente democrática; e se preza pela excelência do ensino e da pesquisa é bom continuar assim.
Por exemplo, em uma reunião com os três candidatos à Reitoria, com o objetivo de que assinassem uma “carta de compromisso” negando a nomeação caso o Cardeal escolhesse o último candidato da “lista tríplice”, um dos estudantes, na abertura da reunião, disse que “a PUC é a primeira universidade a instituir a democracia direta”. Esse foi um erro grave, mas um erro que revela o vício de como a política administrativa e acadêmica interna na PUC/SP, e mesmo do ethos brasileiro, vem se arrastando. É preciso falsificar a tal ponto realidade para que as nossas ideologias façam sentido. Ora, se a PUC tivesse realmente instituído a “democracia direta” na escolha dos seus reitores, aquela reunião não teria sentido. Portanto, o fato de estarem ali reunidos assegurava o reconhecimento da possibilidade de o Grão-Chanceler, Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo Dom Odilo Pedro Scherer, de nomear um dos candidatos, porém passava por cima do acordado em Estatutos e Regimentos. Podem chamar o Cardeal de tudo, menos de golpista. Afinal ele só estava exercendo o que lhe era assegurado e reconhecido pela própria comunidade acadêmica e pelo proprietário legítimo da PUC, a Igreja Católica. Para os candidatos, todos eles, e os participantes ativos no processo de “consulta acadêmica” a acusação de oportunistas seria o mínimo.
E se a comunidade acadêmica se autoproclamava politicamente como herdeira e defensora da “democracia direta”, então deveria ter levado moralmente isso em consideração na hora de convocar os três para assinarem o “termo de compromisso”, passando por cima da possível e reconhecida, porém não esperada decisão do Cardeal. Fazer exigências morais é assumir as responsabilidades e as consequências de ter de cumprir com os deveres morais em toda sua extensão. É obrigação moral de qualquer membro dessa comunidade acadêmica saber o que significa trabalhar e estudar em uma universidade católica. Não adianta querer julgar de improbidade e imoralidade o ato específico da nova reitora em assumir a nomeação, “quebrando com o pacto anteriormente firmado e assinado com a comunidade acadêmica”, se toda comunidade acadêmica quebrava com o “pacto” muito mais fundamental firmado no reconhecimento do próprio estatuto e no ato de sua matrícula ou do contrato de trabalho. Se todos estão comprometidos moralmente com a PUC, então todos estão seguros de que a assinatura daquele “termo de compromisso” não garante ou sirva de exemplo de valor moral algum diante da comunidade, pelo contrário, só revela que toda comunidade engajada no processo de escolha do reitor – incluindo candidatos, professores, alunos e funcionários – vem participando de um processo que se compromete a não respeitar as regras do próprio processo. Salvo aqueles que, em “eleições” passadas, mantiveram-se firmes com a consciência do dever limpa e se recusaram a consentir com um ato em si tão vergonhoso e sujo.
A impressão que fica é que faltou, por parte dos responsáveis, “calcular” as consequências inevitáveis de certas escolhas políticas. O apego irrestrito ao “recente passado” da história da “PUC”, a “nostalgia de luta”, ao “imaginário das revoluções” e não à experiência concreta pensada, refletida e objetiva dos fatos e dos possíveis resultados é uma máquina de gerar estupidez. É muitíssimo improvável que o Cardeal não sabia desse tipo de “trâmite” entre os candidatos e a comunidade. Ao chamarem bombeiros para apagar o incêndio, o Cardeal era o primeiro frentista jogando gasolina na fogueira e assistindo, em seu silêncio, as chamas consumindo os oportunistas de ambos os lados. Uma universidade, tal como a PUC, deveria ser o exemplo de mediação política bem sucedida. Talvez a Igreja – seus membros, e agora falo como aluno da PUC e como Católico – perdeu uma oportunidade fundamental, teológica mesmo, de acolher e mediar esses estragos. Ou talvez não, e era exatamente isso mesmo o que o Cardeal, responsável por zelar pelos valores católicos inclusive dentro da Pontifícia Universidade Católica, previa: ser o estraga prazer dessa farsa democrática e deixar os lobos se devorarem a si mesmos. E o mais irônico de tudo isso é ver o desespero dos que antes gritavam palavras de ordem contra a Igreja Católica agora ter de apelar para o Tribunal Eclesiástico a fim de resolver o impasse em que se meteram. Gesto que caracterizaria vitória não à democracia e seus oportunistas políticos, mas à própria Igreja Católica e a todo patrimônio moral da qual étradicionamente responsável. Por enquanto o que segue é o mal-estar terrível que se criou dentro da universidade. Cabe agora aguardar o desfecho e calcular os inevitáveis prejuízos. Alguma boa lição muita gente vai tirar disso tudo, outros lamentarão por viverem no mundo de suas fantasias.

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