quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A génese do socialismo gnóstico.



Um pequeno trecho "Karl Marx segundo Eric Vöegelin  sobre como a posição marxista exalta o homem a um "ser supremo do universo". O blog postará trechos dessa excelente análise de Voegelin sobre Karl Marx. 


O ponto de partida para o movimento do pensamento de Marx parece ser a posição gnóstica herdada de Hegel. 

O movimento do intelecto na consciência do ser empírico é a fonte maior de conhecimento. Donde a revolta contra a religião como esfera que reconhece um realissimum para além da consciência.

A Dissertação de 1840-41 abre o prefácio com um ataque a Plutarco que ousa criticar Epicuro. A confissão de Prometeus "Numa palavra, odeio todos os deuses" é a sentença lançada contra os que se recusam a reconhecer a autoconsciência humana (das menschliche Selbstbewußtsein ) como a suprema divindade.

O contexto desta afirmação é o debate sobre a existência de Deus. Quaisquer demonstrações são logicamente inválidas. Os deuses são forma real apenas na imaginação e apenas demonstram a existência da auto-consciência humana. Levem papel-moeda para onde ele não é aceite, e logo verão o que acontece. Na prova ontológica, o ser que é dado é a auto-consciência humana.

A forma geral das provas é esta: "Como o mundo está mal organizado, ou é irrazoável, Deus tem de existir". Isto apenas significa que Deus só existe para quem o mundo é irrazoável. Marx sumaria o argumento afirmando que a "irrazão é a existência de Deus". A soberania da consciência e a revolta anti-teística de Marx volve-se, depois, contra os sistemas de Aristóteles e de Hegel: de tal modo explicam o mundo que interrompem qualquer avanço ulterior da filosofia. Sendo impossível o aperfeiçoamento, os sucessores devem virar-se para a prática filosófica e para a crítica da situação. A mente teórica deve virar-se como vontade para a realidade mundana que existe independente dela. Esta semi-contemplação não é muito edificante. Marx estava interessado na filosofia pós-aristotélica de Demócrito e Epicuro porque sentia-a, pessoalmente, em paralelo com a situação pós-hegeliana. A cultura religiosa da Idade Média seria da "era da irrazão realizada", mais uma falácia de Marx. Na verdade, quando se atinge o impasse de Hegel e a especulação filosófica se encontra "concretizada", o que um realista espiritual deve fazer, é abandonar a gnose e regressar às experiências originais da ordem, à experiência de fé. A "necessidade" apontada por Marx era apenas um sintoma da sua revolta demoníaca contra Deus. Uma vez concretizada a auto-consciência, não concebia regressar à irrazão da fé; apenas poderia avançar para a liquidação da filosofia, a crítica radical do mundo e a instauração de novos deuses.

A atitude de revolta efectua-se historicamente mediante a incarnação do logos no mundo, por meio da acção revolucionária. Para Hegel o logos estava incarnado na realidade e poderia ser descoberto pela reflexão do filósofo. O desdobramento da Ideia não era acção humana. A gnose era contemplativa. A definição da figura histórica como pessoa cujas acções se conformam a movimento da ideia não é receita para se tornar uma figura histórica. Esta perversão da gnose activa surge com Marx.

Marx era um paráclito sectário no mais puro estilo medieval, um homem no qual o logos se incarnara e através de cuja ação a humanidade se tornaria o receptáculo do logos tal como Comte, por exemplo.

Não concebeu o espírito como um transcendental que desce para o homem, mas como a verdadeira essência do homem que se revela.

O verdadeiro homem deve ser emancipado das cadeias. A sua auto-consciência divina é o fermento da história. A grande revolução trará o grande homem.

A pneumopatologia de Marx consiste nesta auto-divinização e auto-salvação do homem; o logos intramundano é proclamado contra a ordem espiritual do mundo. 

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