quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ensaio Sobre a função do aborto


por: Rudy Souza 


Para todos entenderem de uma vez (embora eu creia que isto será difícil para alguns, dada a minha experiência com seres humanos, até comigo mesmo), o aborto como medida de saúde pública é um pretexto verossímil, raso, superficial, pequeno e, como tal, um detalhe entre tantos outros detalhes, junto a diversas outras informações manipuladas, tudo sempre alocado e realocado em formato de sistema, com o propósito de, fazendo algo parecer, ao invés de ser, enganar o civil ingênuo, parte do povo, que se sente bem, sem demasiadas preocupações, acredita ele, em dormir nos braços morais, culturais, econômicos e ideológicos do governo inchado tanto quanto possa, já que isto é de certa forma, mas não de outra, mais fácil e que certos dados, importantes para uma maior e melhor conclusão possível, são a ele omitidos. 
Trabalhando mentalmente e na prática apenas com o que seus “líderes responsáveis” lhes passam, que são as informações que a eles interessam. Destituindo-se, então, de poder e autonomia, coisas tão aclamadas, mas tão pouco elogiavelmente usadas e bem administradas, querendo uma vida supostamente mais pacata e segura, para depois enunciar que não gosta do poder - de tomá-lo, estar nele e exercê-lo, abominando-o -, nem de tirar vantagem do semelhante para galgar na vida, ao mesmo ou quase o mesmo tempo em que reclama de quem atua nele para lhe dar a tão desejada vida, “igual, justa, livre, etc.”, porém tão longínqua se comparada à vida estranha e desgraçada que leva hoje.



O mesmo ocorrendo, devido a fazer parte do mesmo sistema, com o dinheiro: detesta riqueza, pois pensa, com alicerce no velho estereótipo de Ensino Fundamental e Médio, que ela advém unicamente de exploração dos fracos e oprimidos. Todavia, quando se encontra em condições desfavoráveis, reclama e entra em greve, com panelaço ou passeata. Sendo como às vezes digo: é o bem-sucedido fracassado que, por não conseguir ser elite, pede que a elite desça até ele. A partir do que temos o culto do fraco e do oprimido, o endeusamento do coitadismo e a cultura do vitimismo. Ao que a menor crítica tecida revela um ego delicado ou fraco. Podendo produzir também o folclore do elogio: elogie mais, critique menos. Ou nem isto: apenas elogie. Afinal, a crítica faz surgirem traumas. Por exemplo disto, o corrigir com caneta vermelho erros de alunos, em aulas, na escola, em alguns contextos, já ser postulado como inadequado. O mesmo valendo para a troca da palavra “erro” por “inadequado”. Eufemismos, como sempre, na função de reduzir o impacto emocional de algo para torná-lo mais aceitável, e isto rapidamente, menos passível de propaganda enfadonha e repetitiva até que o modelo seja absorvido pelas massas. Ou haveria diferença de definição, se houve redefinição, entre pedofilia e “uma criança ter o direito de usar seu próprio corpo como quiser”? Nesta hora, o dever sumiu, e junto com ele a responsabilidade, só permanecendo o desejo e o princípio do prazer. A lógica binária “sofro/não sofro”. Ainda que em alguns cenários consigam engendrar pensamentos mais sofisticados. Bem, isto é uma parte do sistema.



Decorrente disto, há a união do lógico e do agradável na parcialidade das informações divulgadas. Por meio de engenharia social. Criando, assim, "autômatos não autômatos", ou seja pessoas, não robôs propriamente ditos, as quais são robôs no sentido de terem sido como que programadas, a fim de reagir de uma maneira e não de outra a certas coisas e condições. A quem basta proferir um clichê, um vocábulo comportamentalista - por exemplo, "preconceito", "tolerância", "ideologia", "luta de classes", "classe social", fundamentalismo", "extremismo", "respeito", lógica", "dogma", etc. -, que nele já se desperta alguns tipos de reações. Negando-se a verem o outro lado ao mesmo tempo em que têm fé de que são humanistas, esclarecidas educacionalmente em vários sentidos, socialmente conscientes, etc. Contrariamente aos seus algozes e adversários. Tratando-se de gentes que se sentem confortáveis com a ilusão ou a meia-verdade sem se aperceberem do problema. E sem se conhecerem também, ignorando o fundamental “conhece-te a ti mesmo” socrático, imprescindível ao bom pensamento. Sendo mais "para fora" que "para dentro" psicologicamente falando, isto é, extrovertidos e tagarelas em detrimento de introvertidos e introspectivos. E quando se apercebem, para evitar o choque irritante com a realidade e o peso da cumplicidade junto ao tempo, reagem estranhamente ao que se espera de um homo sapiens sapiens.



Isto, é claro, considerando que é, momentaneamente, não a longo prazo, mais fácil viver na naturalidade da vida e do ser e sem freios do que tentando se controlar diante de alguns ou mais valores morais objetivos. E depois, difícil reverter tal processo. Sendo o futuro sem breques e arrependimentos uma das razões de o aborto como prática estar sendo forçado por vários setores sociais a quem o rejeita. Além de que o ser humano sempre se enfada do velho, a tradição, e anseia pelo novo e desconhecido. Em direção ao tudo, ao todo e ao infinito. O que Max Horkheimer, da Escola de Franfkfurt, chamou a nostalgia do Totalmente Outro. Querendo, da perspectiva materialista, ser Deus como Deus. Cansando-se do menos e querendo o mais. Logo, não é verdadeiramente, ou unicamente, uma medida de saúde pública, é um tapa-buraco arranjado para ser tapa-buraco de uma sociedade montada para ser caótica e disciplinada, com indivíduos programados. Como se fosse uma matrix, sem libertos, nem escolhidos. Um mundo sem liberdade iludido de que tem liberdade, sem controle e enganado de que tem controle. Em um mundo assim todos passam a desconfiar de todos, incluindo de tudo. Até de si mesmos.

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