sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Lacidade, hábitos privados e convicções públicas



Por , fevereiro 11, 2012 6:06 pm


Não deixa de ser um exercício cômico acompanhar alguns debates a respeito da questão da laicidade do Estado. Os humanistas seculares atuais nada mais são do que uma versão chocha do anti-cristianismo revolucionário dos Iluministas Radicais. Só mantiveram a roupagem rabugenta e abriram mão da sofisticação filosófica.
Um dos truques mais baixos dos humanistas seculares é tratar a religião apenas como algo da esfera privada e, consequentemente, jamais tolerar sua publicidade. Um homem pode ter muitas convicções, menos as de origem religiosa. Com esse truque vão esmagando a intimidade mais íntima de alguém à vala do caseiro, do doméstico e do patético.
Evidentemente isso não passa de uma confusão entre “etiqueta privada” e “etiqueta pública” das “convicções fundamentais” nas quais são engendradas visões de mundo. Não existe uma única justificativa em dizer que um homem não pode manifestar seus valores mais íntimos em público. Tudo não passa de estratégia anticristã. Duvido que haja algum tipo de incômodo com um representante de uma religião afrodescendente manifestando sua opinião política no Congresso ou um representante de alguma tribo indígena com seu cocar de penas coloridas.
O que  não se deve, por razões óbvias, é manifestar nossos hábitos íntimos, esses são separados da publicidade por pura conveniência. Mas não há como separar as crenças fundamentais de um homem em “crenças privadas” e “crenças públicas”.
Não existe a distinção entre “valores privados” e “valores públicos”, existe sim a distinção entre “hábitos privados” e “hábitos públicos”. Se você é honesto, é honesto desde a hora em que põe a cabeça no travesseiro ao furor do trabalho. Mas se peida debaixo das cobertas, certamente evita fazê-lo em público.
Não existe “convicção doméstica” e “convicção pública”. Os humanistas seculares, defensores do ateísmo estatal, adoram confundir as coisas e criar monstrengos esquizofrênicos. A laicidade do Estado é justamente a garantia pra todos, sem exceção, maniste publicamente suas convicções fundamentais.
Por exemplo, se um homem é a favor do aborto, evidentemente, ele é por alguma ou por inúmeras razões. E não adiante obscurecer e invalidar as teses do interlocutor com um “bom, mas o estado é Laico”. Só uma análise mais cuidadosa nos mostrará que tais razões são enraizadas em convicções cada vez mais fundamentais. Razões que não deixam de ser da ordem do religioso. Desde que se compreenda “religioso” para além das tolices secularistas.
Há sempre um ponto de partida escondido na vida íntima de um homem, e é desse ponto que qualquer visão de mundo é deduzida e construída. E é na vida madura em que se faz uma decisão fundamental e se afirma pra si mesmo que se acredita nisto ou naquilo por tais e tais razões. E o problema é que não há como não levar isso para vida pública. Não há como arrancar de si o que se é por convicções mais íntimas. A consciência é sempre pessoal, a somatória de seres conscientes vivendo em comunidade não faz a comunidade uma entidade, em si e por si, consciente.
A laicidade do Estado é a garantia de que tais escolhas, de um homem maduro, nunca serão subjugadas pelo grupo. Laicidade não significa só a separação do religioso e do secular. Significa muito mais, significa a garantia de que a ordem do religioso (que é a ordem íntima do sentido da existência de qualquer indivíduo, nesse sentido, o ateísmo e o agnosticismo também são da ordem do religioso) não sucumba ao poder do coletivo, que não passa de uma pura abstração.
A laicidade é a garantia de cada um manifestar publicamente tudo aquilo que escolheu na intimidade de si consigo mesmo. E não há motivos pra esquecer a história da civilização por de trás disso. Um ateu pode odiar o cristianismo por várias razões, mas ele não tem como negar, a não ser por puro ódio, revolta ou ingenuidade, que esta foi única civilização que garantiu a manifestação pública de suas escolhas mais íntimas. A concepção da irredutibilidade da pessoa humana é a prova disso.
Poderão existir 99,99% de deputados satanistas, e por uma questão de princípio o Estado não deixará de ser Laico. Assim como poderá existir 99,99% de deputados agnósticos e o Estado também não deixará de ser Laico. E ninguém poderá calar nenhum desses deputados de manifestarem publicamente o que se é.
Claro, os rituais satânicos não vão pra bancada, ali se discute, dá razões de suas convicções ainda que se escondam as causas mais íntimas. Mas ninguém vai dizer que ele não poderádefender o direito de usar seus bodes em rituais. Talvez seja proibido o uso dos animais para os rituais ou até permitido só pra essa finalidade. A questão é: a Laicidade do Estado garante seu direito de defender as tolices mais macabras e os mais medonhas dogmas.
Os defensores dos direitos dos animais podem protestar e ficar bravos o quanto quiserem, mas na ordem política em que vivemos, a solução é tentar eleger seus representantes e levar suas convicções íntimas pra discussão pública, por mais banais que elas sejam aos olhos dos satanistas sacrificadores de bodes e bebedores de sangue.

0 comentários :