segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Cadê o seu Deus?



por: Leonardo Oliveira 

Inúmeros comentários se espalharam na internet, desde a tragédia do incêndio que matou mais de duzentas pessoas numa boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Se a maioria agiu prudentemente, espalhando palavras de apoio e de luto às famílias, outros se prestaram a um desserviço à ocasião. Quebraram o protocolo que exige um mínimo de decência na hora da morte. Incluo entre eles, alguns ditos cristãos, que começaram a fazer conjecturas morais inconvenientes sobre o incidente. Alguns pregavam que se os jovens estudantes não estivessem em boates, mas sim em Igrejas, nada disso teria ocorrido. Mas a questão principal é: Igrejas não pegam fogo também? E se morressem carbonizados ou asfixiados num templo, deveriam ficar em casa? A lógica estreita ignora uma questão elementar: eram jovens, queriam namorar e se divertir, como é elementar em sua idade. E que há de mal nisso? Cansei de assistir festas de santos da igreja onde jovens só queriam dançar, flertar e beber. E a festa junina é o que? Ao que parece, o julgamento santarrão oculta sérios preconceitos. Os jovens estudantes farristas não pareciam estereótipos de moralidade e austeridade cristãos idealizados por gente sectária?  Então estavam muito mais propensos à morte. Tamanha a visão obtusa destes comentários.

Por outro lado, há a panfletagem virtual ateísta. A pergunta desafiadora, tal como extraída das palavras do próprio demônio e saída da mente vazia de um ateu é: cadê o seu Deus? Tal pergunta me lembrou da figura perversa de Lênin. Quando ele confiscou os grãos de alimentos dos camponeses russos e impôs uma repressão brutal às rebeliões nos interiores de Rússia, em plena guerra civil, dizia que causaria uma violência e terror tais, que faria o homem russo duvidar da própria existência de Deus. Em suma, a pergunta desafiadora é cínica e niilista. Ela é cínica, porque na prática, ao negar Deus, nega também o bem como princípio ordenador e absoluto do mundo. E niilista, porque sem o bem, só nos resta o mal absoluto, o terror e a falta de sentido para toda vida humana.

Sem Deus, o que nos resta? O nada. O nada, que na ideologia materialista, é considerado criador de tudo e que tudo destrói. É espantoso pensar que o nada seja o critério mais absoluto do ateu. O nada tem inteligência a ponto de criar o mundo. Apesar de que o nada represente a antítese de tudo que exista.

Paradoxalmente, não se pode negar as influências teológicas francamente cristãs na idéia do “ex nihilo”. Já dizia a filosofia grega, atribuída a Parmênides, “que do nada, nada se cria”, parafraseado posteriormente pelos medievais. Contudo, os filósofos gregos não concebiam a idéia do mundo criado a partir do nada. Tinham uma visão próxima do panteísmo. Chegavam por vezes a crer na infinitude do universo. O mundo seria extensivo a partir do ente maior, que era Deus. A Idade Média introduziu o nada na cosmologia ocidental como categoria autônoma e dicotômica da existência do mundo. O mundo não surge diretamente da natureza de Deus, mas tão somente como produto de sua vontade, consciência e sabedoria transcendente. A Criação é um universo distinto do Criador. E como tal, não é infinito, tem uma origem e antes não havia nada. Como poderá se tornar nada, afastado de quem o fez. A diferença é que o cristão pressupõe que sem a ação intelectiva e voluntária de Deus, o nada por si mesmo não se cria. Deus cria o mundo a partir do nada.

Os ateus revelam uma espécie de panteísmo radical, porém, negando os atributos do bem na natureza. Ou mais, conceitos de bem, mal, inteligência, vontade, vida, morte, são completamente indiferentes à natureza. Neste aspecto, paradoxalmente, o “ex nihilo” ganha categorias personalizadas de existência. Contrariando a lógica elementar, o nada, do nada, se cria tudo. Irracionalmente, impulsivamente, ocasionalmente. E tem capacidade racional de organizar a própria realidade.

Quando se fala das aventuras da religião cristã, poucas pessoas meditam como o passado da humanidade foi bem mais difícil do que hoje. Até o século XX, a morte foi um expediente bem comum na vida das pessoas. A juventude e a infância eram assoladas por ela. Morria-se no nascimento, morria-se no parto, morria na infância, morria-se prematuramente com relativa facilidade. Rara era a velhice. Ou mais, a velhice tinha mais sinais de uma juventude precocemente envelhecida. A vida chegava até aos 20, 30 ou 40 anos. Aparentemente, era o estado natural da humanidade morrer jovem. Era um mundo mais rude e violento, mas primitivo.

Quando Agostinho escreveu “A Cidade de Deus”, no final da Idade Antiga, o “mundo” conhecido estava ruindo. Esse “mundo”, por assim dizer, era o Império Romano, atacado por invasões, guerras e convulsões sociais, que deixavam a população atônica e desamparada. Os antigos e tacanhos deuses pagãos da cidade não pareciam oferecer respostas aos problemas cabais daqueles tempos sombrios. A filosofia antiga estava na mais completa decadência. Da própria sociedade pagã, não havia uma resposta para o furor dos acontecimentos. O Cristianismo foi a solução para uma sociedade adoecida.

No início da Idade Média, a Igreja Cristã teve em suas mãos uma gigantesca missão: reerguer a estrutura da sociedade, destruída pelo caos. Através da perseverança dos monges, bispos e padres, a Europa inteira foi cristianizada e preservou uma boa parte do conhecimento do mundo antigo, ameaçado de se perder para sempre na memória histórica. Tentou reconstruir o Império Romano e acabou por criar novas instituições, introduzir novos valores. Um elemento foi poderoso nessa reconstrução: a fé.

Os esforços das ordens monásticas em salvar a Europa tiveram na fé um elemento poderoso de mobilização. A fome era constante. Guerras destruíam mosteiros, pilhavam e queimavam livros. E os monges reconstruíam os velhos lugares de isolamento e meditação.  Reescreviam e copiavam os textos antigos, esperançosos de que tais preciosidades sobrevivessem ao tempo. Tais ações fundaram a escola, a universidade e toda a estrutura de educação da atualidade. Sem o monasticismo, as preciosidades intelectuais da antiguidade seriam virtualmente apagadas. Não haveria ciência.

A Igreja do conhecimento humano e divino revelado é, também, a Igreja do amor. Hospitais e demais centros de caridade eram construídos para atender aos doentes e inválidos. A caridade foi além das meras instituições: tornou-se uma prática comum, uma cultura do ocidente, no âmago de uma sociedade barbarizada pela violência.

Os monges também pegaram no arado e na enxada. Criaram as primeiras grandes instituições empresariais do ocidente. Quando se repete à exaustão a tolice de que a Igreja detinha a maior parte das terras da Europa, pouca gente sabe que as terras doadas, em grande parte, eram íngremes. Os mosteiros cultivaram os pântanos e com os excedentes, contabilizaram recursos, alimentavam os pobres e arrendavam glebas aos camponeses. Tinham uma função social protetora, numa época de visível desamparo aos miseráveis.

Toda a realidade do mundo desafiava o nome de Deus. O Evangelho já dizia do “príncipe deste mundo”, o demônio. Entretanto, o homem medieval confiava profundamente na transcendência. A fé o motivava. Deus estava sempre presente na alma cristã e no mundo. Mesmo nas épocas mais tristes e atrozes, a Cristandade, vigorosa, se interligava ao Criador. E havia muitas crises. Quando houve a peste negra, que dizimou cidades inteiras da Europa e espalhava cadáveres por todos os lados, a comoção foi generalizada. Famílias inteiras mortas, mulheres que enviuvavam e perdiam maridos e filhos, crianças que viraram órfãs do dia para a noite, homens que enterravam seus pais e suas esposas em valas coletivas, numa força maligna de destruição que dominava a atmosfera do ar.

Quando se presencia a morte de mais de 200 jovens inocentes, a pergunta que inculca cada cristão é: onde estará nosso Deus? Agostinho achou a resposta, ao explicar que o mal só existe porque existe algum tipo de bem. Ele explica nas Confissões:

“Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E como se não fossem boas, nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria tão nociva se diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo aquilo que se corrompe sofre uma diminuição de bem. Mas privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se de fato continuassem a existir sem que pudessem corromper-se, seriam melhores, porque permaneceriam incorruptíveis. Mas haverá maior absurdo do que afirmar que as coisas se tornariam melhores perdendo todo o bem? Portanto, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas, pelo fato de existirem, são boas. E aquele mal, cuja origem eu procurava, não é uma substância. Porque se o fosse, seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e portanto um grande bem; ou seria substância corruptível, e então se não fosse boa, não poderia se corromper”.

Os prantos das famílias, a tragédia das mortes prematuras e o sentido aparentemente absurdo desses acontecimentos têm uma razão de ser: perdeu-se um bem maior, a vida, junto com a juventude inocente. Parece-nos que o mal é algo predominante. Mas na prática, ele só existe por algum tipo de bem que se perde. Um bem que, distante de Deus, sempre será corruptível.

“Onde está seu Deus?” perguntará maliciosamente o tolo ateu. Está no bem que se perde, que um dia será compensado com a eternidade dos céus. Sem a fé na eternidade, o mal, o nada, será uma entidade absoluta. E aí não haverá razão para chorar pelos entes queridos, porque o bem simplesmente deixa de existir. 

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