segunda-feira, 18 de março de 2013

Morre um dos ícones da erudição, da verdadeira educação e da liberdade econômica



Abaixo, um texto de Silvio Grimaldo, que conheceu J. Monir  anos atrás. A história dele é repleta de bons alunos, bem educados e com uma síntese no pensamento: ele era um grande mestre!

O homem erudito se vai. Muitos canalhas e professores desonestos, mentirosos ficam. Resta-nos levar o legado de um dos grandes mestres que este país teve. Resta-nos levar a propagar seus pensamentos, erudição,  e destreza para o que fazia, tomando-os como exemplo. 

Descanse em paz, caro José Monir Nasser! 

Neste vídeo, um grande exemplo do educador e profundo conhecedor da educação que era:


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PROFESSOR MONIR


Por Silvio Grimaldo

A palavra educar deriva do latim ex ducare, literalmente, conduzir para fora. Originalmente, significa retirar o sujeito de dentro da jaula do ego e apresentar-lhe o vasto mundo das possibilidades humanas, que se abre para além do seu umbigo. A imagem do verdadeiro educador está simbolizada de maneira definitiva em Virgílio, o poeta que na Divina Comédia retira Dante de dentro de sua floresta escura e o guia até as portas do Paraíso. E não me ocorre imagem melhor para descrever a vocação e o trabalho do economista e escritor José Monir Nasser.

O professor Monir, como seus alunos costumam chamá-lo, é um homem de muitos interesses, como aqueles antigos e quase extintos humanistas, que se dedicavam a diversos campos do saber e do fazer humanos. Os assuntos que ele discute vão do agronegócio à metafísica, do desenvolvimento econômico ao esoterismo islâmico, de pintores curitibanos aos filósofos gregos, da situação política brasileira à literatura ocidental. Como os antigos, que dominavam as artes liberais da palavra e do número, o professor Monir se formou em Letras e Economia, duas áreas aparentemente divorciadas entre si, mas que encontraram uma síntese perfeita na sua carreira como economista, consultor, palestrante, escritor, editor, pintor, crítico literário, pesquisador de religiões comparadas, entre outras coisas. A vocação pedagógica, porém, sempre foi denominador comum de todas as suas atividades.

A vida de José Monir Nasser pode ser dividida em três fases: a do economista; a do consultor; e a atual, a do “homem dedicado às coisas da cultura”. Em quatro, talvez, se contarmos a etapa da sua formação intelectual, na qual fora levado ao Paraíso da alta cultura por outro Virgílio, seu mestre, o irmão marista Virgílio Balestro. Essas três fases, de uma forma ou de outra, carregam a marca do guia de homens, do educador nato.

Na primeira fase, o economista se dedicava a ensinar pequenos empreendedores a arte quase esotérica da abertura de capital de empresa, a entrada no mercado de capitais. Na segunda, o consultor econômico, que não é outra coisa senão um professor de empresários e administradores públicos, mostrava o caminho correto do desenvolvimento para firmas e comunidades. Nessa época, seus trabalhos de consultoria de empresas e desenvolvimento econômico, somados aos seus estudos de história, literatura, filosofia e religião comparada, resultaram numa originalíssima teoria do empreendedorismo cívico e do desenvolvimento regional, que mais tarde seria apresentada em vários cursos e conferências, recolhidos depois no livro A Economia do Mais. É a sua teoria, ou melhor, a sua intuição sobre os fundamentos do desenvolvimento regional que determina todo seu trabalho posterior, a terceira fase, a do homem dedicado às coisas da alta cultura e à formação de uma elite capaz de sair da selva escura para contemplar as realizações e aspirações mais elevadas do espírito humano.

Segundo o professor Monir, os fatores mais importantes para o sucesso de uma economia, isto é, a criação de riqueza, não são de ordem econômica, e sim aqueles que ocupam na estrutura da realidade um lugar superior aos bens materiais. O bem mais importante para desenvolvimento econômico de uma comunidade é a inteligência humana. A inteligência, porém, não deve ser entendida como mera capacidade lógico-dedutiva, nem como esperteza pragmática, mas em seu sentido aristotélico e escolástico, ou seja, a união indivisa entre intelecto especulativo e intelecto prático, a unidade entre razão e moral. Por isso, uma sociedade não pode ser rica antes de ser inteligente. Não pode existir uma economia realmente sólida e desenvolvida sem que haja uma elite cultural voltada para os bens espirituais, capaz de guiar, julgar e interpretar os esforços da comunidade.

Para Monir, os brasileiros ainda não perceberam a relação de subordinação entre alta cultura e economia, entre o espírito e a matéria, como ele bem observou:“o Brasil chamava-se Ilha de Vera Cruz, depois virou Terra de Santa Cruz, que eram menções religiosas, ou seja, o país estava sendo fundado como derivação de algo que o transcendia, mas no último momento virou Brasil, que é uma commodity. E o Brasil, se tem algum sucesso econômico no momento, é devido à exportação de commodities. Isso, de certa forma, mostra que continuamos no mundo das coisas, que não conseguimos ir nem para o mundo das ideias, nem das emoções, nem para nada. O Brasil é uma sociedade sensorial e essa é sua desgraça, pois não vamos construir uma civilização com base nos cinco sentidos”.

Nos últimos anos, nosso querido professor Monir tem se empenhado em reverter essa situação. O programa Expedições pelo Mundo da Cultura, que consiste em ler com seus alunos, ao longo de cinco anos, os cem livros mais importantes da cultura ocidental, assim como todos seus cursos, conferências, grupos de estudo e leitura, não têm outro objetivo senão indicar aos indivíduos de boa vontade o caminho para fora da escura selva brasileira, em que nos perdemos no meio do caminho da nossa vida.

(Publicado no Jornal da ACIL, março de 2012)

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