segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sakamoto luta pela legalização do assalto




Por: Flávio Morgenstern                                                                                19 DE JUNHO DE 2012
Estava eu na moral e na humildade fugindo do vazio da existência no vácuo abissal do Twitter – aquele buraco negro onde todos lutam contra a força centrípeta tentando fugir do vórtice central que nos arrasta para a piada do pavê. Estava tudo bem, até que alguém soltou um Sakamoto na timeline.
Entre as extensas listas de leitura que sou instado por meus leitores a sugerir, devo admitir o que nunca ainda afirmei: depois do Implicante™, a primeira coisa que vocês devem se preocupar em ler na internet é o Sakamoto.
A explicação é óbvia. De toda a blogosfera progressista, Sakamoto é autor ipse dixitLola Aronovich (ladies first) é a feminista que defende estuprador e espancador de mulheres, mas, vá lá, até que consegue falar alguma coisa interessante sobre algum filme inócuo uma vez a cada equinócio. Túlio Vianna é o cara que acha que uma mulher exibir lingerie no Twiter é “machismo”, ao mesmo tempo em que apóia a Marcha das Vadias e também quem estupra, seqüestra e mata a facadas uma adolescente – mas, ora, até pode dar umas dicas curiosas de carreira para seus alunos. Tem o Nassif, também. Ele escreve muito mal, mas vai que você gosta de MPB – pode até usar o blog dele pra alguma coisa. E, claro, você pode ler o Emir Sader, o Brizola Neto e o Paulo Henrique Amorim pra… ahn… bom, deixa esses exemplos pra lá.
Em suma, esses caras até têm trigo no meio do joio. Com Sakamoto a coisa é mais fácil: estourou um tema e você não sabe o que pensar a respeito? Corra para o blog dele e pense o contrário. É um manual perfeito de como não pensar. E isso abusando da amabilidade com os atos alheios.
Sakamoto escreveu agora que Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal. Para ele, a onda de arrastões que anda acontecendo em restaurantes de São Paulo (restaurante “chique” só por ter receitas que não envolvam calango) mostra como nossa “elite” é ruim, má, abjeta, nojentinha. Afinal, os juízes que estão reformando o Código Penal “não estão propondo que bulling seja crime? Ostentação é mais do que um bulling entre classes sociais. É agressão, um tapa na cara.” Na verdade, quando um assaltante enfia uma metralhadora na cara de alguns velhinhos jantando nos Jardins, a vítima é o assaltante, e os velhinhos é que são vermes que deveriam ir pra cadeia. E claro que só os mongolóides é que não entendem isso, pois, como ele afirma,
“Se o planeta não for gratinado por nossa ignorância no meio do caminho, tenho certeza que uma sociedade mais avançada vai utilizar esse texto para entender o que deu errado em uma cidade como São Paulo.”
Infelizmente para Sakamoto, ainda não vivemos na sociedade mais avançada da metralhadora social. E a despeito da logorréia fedendo a naftalina sobre “classes sociais” (classe é uma categoria mais abrangente do que espécie, gênero ou mesmo a família, o que não é cabível como explicação para uma sociedade com alguma liberdade de mercado que permita que se enriqueça ou se perca dinheiro em menos de uma década), tal arrazoado tem a profundidade de uma carcaça de planária. Deve convencer muito bem seus leitores e alguns intelectuais do complexo PUCUSP, mas não as duas categorias que sabem da vida: quem lê livros de verdade e quem mora lá na periferia, trabalha, estuda de noite e, como disse o Guy Franco, se assusta quando descobre que gente que nem o conhece sabe o que é melhor para ele sem o consultar.

O problema do mundo é o egoísmo econômico. Se vocês parassem de ostentar e me dessem logo seu dinheiro, o mundo seria bem melhor.

Segundo Sakamoto, criminosos, mais do que escolherem o crime, fazem “uma escolha pelo reconhecimento social”. É a manjada filosofia de gabinete de professor pregando igualdade econômica na PUC. Para o professor, é “um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida”. Sakamoto deve ser um malufista convicto. Um árduo defensor da corrupção generalizada. Ou quando não tem sangue, não tem emoção? No pain, no gain?
Se soubesse como é a realidade da criminalidade (embora a palavra “realidade” talvez lhe dê um choque anafilático), poderia imaginar quão empreendedor alguém precisa ser para assaltar um restaurante. Não é pular na frente de alguém de noite com uma faca de cozinha e pegar o celular. É ter equipe, equipamento (aquele tipo de equipamento que explode miolos), planejar com dias de antecedência, ter rota de fuga e – prestem atenção na genialidade – fugir de carro depois de assaltar um restaurante nos Jardins! Ou um assaltante “afirma sua classe” nessas horas esperando num ponto de ônibus na Av. Faria Lima?
Na favela São Remo, do lado da USP, a polícia encontrou metralhadoras, granadas, armamento russo pesado traficado geralmente via Síria/Irã, que as FARC importam e depois passam por Bolívia e Paraguai até chegar ao Brasil. Quanto custa um revólver mequetrefe produzido pela Taurus? Já tentou imaginar o preço de uma metralhadora que rodou 3 continentes para tal? Será que a favela tem metralhadoras porque favelado “afirma sua classe” se preocupando em comprar Uzis (decorrência necessária do Sakamotismo, pobre é tudo assassino), ou por que alguns seres sem apreço pela vida alheia enriquecem absurdamente vendendo drogas para aluno vagabundo ali do lado?
Claro, a culpa não é do assaltante, do traficante, do aluno vagabundo. A culpa é sua, que “ostenta”. Afinal, se você é pobre, não tem – e, portanto, é obrigação de quem tem dar a quem não tem. Se um assaltante te mata, a culpa é sua, pela ostentação, que deveria estar arrolada no Código Penal. Uma pessoa não tem direito a dar a outra pessoa um direito que ela própria não tenha: para Sakamoto, portanto, se o Estado pode te mandar para a cadeia por ter algo, o assaltante pode te mandar pro IML.

Ostentando paciência

Tudo decorre (prendam a respiração pois vai ser original) do consumismo, “pois não são apenas os jovens de classe média alta que são influenciados pelo comercial de TV que diz que quem não tem aquele tênis novo é um zero à esquerda”. Ora, existem milionários e miseráveis. Classe média não (isso só existe quando se trata de elogiar o Lula). E claro que um comercial te obriga a ter algo – como um comercial de absorvente me mostra que, sem Intimus gel, estarei lascado uns 4 dias por mês.
Para o professor Sakamoto, “as hordas bárbaras vão engolir a ‘civilização’”, o que deve ser comemorado (alguém aí tem um livro do civilizado Kaváfis para dar ao Saka?). E só “os mais ricos” reclamam. Como disse o Alexandre Soares Silva na Alfa desse mês, quando vou parar de ver críticas ao consumismo de quem consome bem mais do que eu?
Dear Sakamoto, deixa eu te explicar uma coisa: sou um falido, moro na periferia, nunca tive carro (nem minha família), não tenho nem CNH, estudo na PQP e volto de noite pra casa na frente de um matagal. É você, que dá aula na PUC, ou sou eu que tem medo da criminalidade? Entendeu a parada agora, longe do discursinho de “classes sociais”? Quem é mais assaltado e preocupado com segurança: quem mora no Capão Redondo ou no Morumbi? I rest my case.
Saka também bate no peito pra falar que cresceu no Campo Limpo. Ora, isso é ostentação das bravas pra quem cresceu em Diadema, em Osasco, em Parelheiros, no Jardim Danfer, em Calmon Viana, no Capão Redondo. Temos algum critério de definição do que pode e do que não pode, do que é verdade e do que é mentira, que não dependa do quanto cada um ganha, no mais descaradopolilogismo, como o demonstrou o maior economista desde o Big Bang, Ludwig von Mises? Por acaso ao ganhar uns trocados vendendo pizza em Pirituba passamos a ser exploradores que devem ir pra cadeia, e não mais “vítimas do sistema”?
Mas falar de Sakamoto e contradição é uma coisa meio pleonásmica. Não precisamos cotejá-lo à realidade lá fora de sua vidinha de professor de PUC. Podemos nos ater a um único parágrafo de seu pastiche:
Qual a causa da violência? A resposta não é tão simples para ser dada em um post de blog, mas com certeza a desigualdade social e a sensação de desigualdade social está entre elas.
Não é tão simples, mas é com certeza desigualdade e sensação de desigualdade. E vocês aí, moscando e não instaurarando o comunismo (por que reclamar tanto de “desigualdade entre classes sociais” e ter tanto medo da palavra comunista?!). O problema é “falta de diálogo” (por isso precisamos de metralhadoras! para dialogar melhor!!), e não ver no outro um “semelhante” com “necessidades” (por exemplo, a necessidade de alguém de continuar respirando, e não tomar um tiro enquanto almoça). Mas quando a necessidade se torna valor de troca, quem é que vai dizer que necessita menos? Não é preferível ter o trabalho como moeda? (quem já leu 3 páginas de Ayn Randpode gelar a espinha ouvindo alguém cuja Natureza lhe cobra as necessidades em formato de texto).
Claro, no parágrafo seguinte, Sakamoto já está berrando que devemos (como nos dá ordens o rapaz!) “combater a violência, garantir o direito de sair sem ser molestado”. Ainda não entendi se devo ser civilizado e convidar o Sakamoto para um restaurante ou lhe roubar seu ornitorrinco de pelúcia (afinal, ele tem, e eu não tenho – desigualdade flagrante). Se a culpa é da desigualdade, vou pedir pra aumentarem meu salário pra ficar igual ao do Sakamoto e ter um MacBook igual o dele na foto para eu não assaltá-lo.

A culpa é dos ricos que são ricos. Vamos enriquecer os pobres para culpá-los também.

Todo o busílis se deu, na verdade, por uma reportagem de Mônica Bergamo, entrevistando socialites sobre a segurança nos restaurantes chiques. Bergamo agiu com uma ironia que as sinapses sakamotas não sakaram: ao contrário de entrevistas geralmente publicadas sem as emoções do entrevistado, estão lá todos os clichês e tremeliques que ainda dão uma sacaneada básica com a bourgeoisie (será que é um bom momento para lembrar que Sakamoto, que não sei como passou em História no vestibular – nem no da PUC – já afirmou que Higienópolis é um “feudo da burguesia”, sem perceber a contradição flagrante na sua metáfora?).
Todavia, mesmo as dondocas parecem muito mais inteligentes do que Sakamoto. Por exemplo, Talita de Gruttola, voluntária no Hospital do Câncer (que pecado! que ostentação! como ainda não gastamos mais um dinheiro público mandando essa elitista para a cadeia?!), afirma: “É um absurdo você ir a um restaurante e pensar que pode ser metralhada”. Humm… eu concordo. E também fora do restaurante. E também no matagal aqui na frente de casa. Por que o Sakamoto, que quer “garantir o direito de sair sem ser molestado”, é contra?!
“A modelo Cassia Avila afirma que tem ‘orado para Jesus’. E evita andar a pé”. Aposto que Sakamoto também acha que uma correntinha no pescoço com uma oração é ostentação. É falta de olhar para o próximo. Curiosamente, também evito andar a pé aqui nas bocadas.
 Já a administradora Flavia Sahyoun dá uma tocada que vai doer lá: “Roubam tanto no Brasil que pensam que todo mundo que tem dinheiro é porque roubou e não porque trabalhou”. Se Sakamoto não fosse o mais inculto dos blogueiros progressistas, apostaria que ele entendeu mal e acreditou em excesso nas teorias de Rawls, e precisava ler como Nozick mostra que Flavia Sahyoun, conhecendo-o ou não, dá valor ao trabalho e ao mérito como Nozick faz (expliquei de passagem lá no blog doAugusto Nunes). Sakamoto dá valor à inveja e à agressão física (abusando do eufemismo).

 Ostenta mas não mata

Mas culpar (ou melhor, criminalizar) a ostentação não seria culpar a vítima? Bem, é direito de todo psicopata. Entretanto, como é possível afirmar isso sobre bens, mas ser a favor da “Marcha das Vadias”?
Sakamoto acredita que tal marcha faz uma crítica ao estupro afirmando, justamente, que “a culpa recai sobre a própria vítima”. E ironiza um possível discurso de estupradores:
Afinal de contas, quem são eles para não se encaixarem? Quem são eles para acharem que podem ser melhores do eu, sendo diferentes do que aprendemos como o “certo”? Bem-feito. Vestida assim, ela estava pedindo.
Ora, nem é preciso trocar as palavras por sinônimos para mostrar a maluquice. Quando Saka soca um “vestida assim”, talvez ele pensasse num decote ou numa mini-saia (o que é de completo direito das mulheres usarem, mas não recomendo que façam quando estiverem sozinhas, ou sem defesa, em lugares onde não sabem se algum tarado aparecerá de repente – sou conservador?). Mas “vestida assim” também pode significar “com uma jóia”, com um Blackberry, com um brinco a ser arrancado. Por que se criminaliza a vítima num caso, e no outro se grita contra sua culpabilização?
Um parágrafo seu é a própria resposta:
“As pessoas envolvidas em casos de violência contra mulheres colocam em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: quem não se enquadra em um padrão moral que nos foi empurrado – e que obedece aos parâmetros masculinos, heterossexuais e cristãos – é a corja da sociedade e age para corromper o nosso modo de vida e tornar a existência dos “cidadãos pagadores de impostos” um inferno. Seres que nos ameaçam com sua liberdade, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos homens de bem. Sim, quando uma mulher não pode escolher como se vestir sem medo de ser importunada, ofendida ou violentada toda a sociedade tem uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer.”
Deve ser algo que funciona na década de 60 ou lá no interior de Santo Antônio dos Três Coquinhos (onde, justamente, os bárbaros dominam, e não os civilizados). Mas agora sim vamos trocar algumas palavrinhas: o que ouvi a vida inteira foi um discurso de luta de classes (tenho menos de 30, não me culpem: culpem o Paulo Freire e a Erundina). Quem sempre foi pintado como “corja” por todos os meus professores são os que têm dinheiro. E não se encaixar nos padrões de revolta pelos “hom@ns de bem” é o que me garante o ódio de toda a intelligentsia uspiana. Ou, como disse o Urso, para combater o estupro, devemos engordar e retalhar nossas mulheres? Para Sakamoto, estes são“Problemas que não conhecem classe social, cor ou idade. Como as mulheres que são maioria – e minoria”. Ué….
Parcela de culpa por estupro? Não, eu que recomendo que não se use roupas muito chamativas por aí. E podem ter certeza de que, ao contrário de Sakamoto, quando ouso “combater a responsabilização das vítimas pela violência sofrida”, não escolho se gosto ou não da vítima, nem quanto ela faz de dinheiro (porque “ganhar” é coisa de quem não trabalha), e nem sequer me preocupo em saber se ela votou nos meus candidatos ou não antes de definir se a culpa é mesmo da vítima ou não.
Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Mora na periferia, precisa de um adicional por trabalho insalubre e não é a favor do Estado porque tem preguiça de pegar fila pra ter comida. No Twitter, @flaviomorgen

Um comentário :