segunda-feira, 6 de maio de 2013

A infelicidade do século






Escrito por J. O. de Meira Penna 

Com o título Lê Malheur du Siècle (A infelicidade do século), publicou Alain Besançon, em 1998, uma das melhores análises do totalitarismo de “esquerda” e de “direita” já empreendida em nossa época. Professor do Institut de France e considerado o maior especialista francês em Marxismo e Kremlinologia, é Besançon o autor de um grande número de livros dedicados a exorcizar o fantasma da ideologia que tamanho fascínio exerceu sobre o mundo do século XX – uma atração fatal que teve como resultado, em âmbito global, a morte de cerca de duzentos milhões de seres humanos.

Publicado em português pela Bertrand, o pequeno livro vem curiosamente acompanhado de “orelhas” com uma crítica à própria tese da obra por parte de seu tradutor. Entretanto, seguindo na trilha de um trabalho anterior, La Falsification du Bien (1985) no qual se dedicou especificamente ao estudo comparativo do pensamento de George Orwell e do grande filósofo russo do século XIX, Vladimir Soloviev – Besançon insiste em duas teses principais.

{mosimage}A primeira é que esses “gêmeos heterozigotos”, o nazismo e o comunismo, se caracterizaram pelo empenho que ambos demonstraram em criar uma aparência de defesa de belos ideais de patriotismo, progresso, justiça e liberdade a fim de esconder sua natureza essencialmente perversa, cruel e opressora. O Bem foi assim “falsificado” como acentua o autor. Criou-se uma cultura da Desinformação e da Mentira, no sentido do aforismo de Kafka que “a mentira se tornou a Ordem Universal”. Orwell satirizou magnificamente o fenômeno com sua noção de “duplo-pensar” ou “novilíngua”... “A paz é a guerra”, “a mentira é a verdade”, “a tirania é a liberdade”, “a polícia é o Departamento do Amor”, e assim por diante.

Em nosso país estamos assistindo a um modelo quase perfeito do processo pelo qual os dezeseis mil candidatos às próximas eleições [2002], sendo seis para a Presidência da República, mentem, desmentem e falsificam a Verdade, proclamando ideais exatamente opostos aos que cultivam e às suas verdadeiras intenções na conquista do poder. Em outras palavras, quanto mais falam em desenvolvimento e “justiça social”, tanto mais se esforçam em preservar um regime injusto que, inevitavelmente, mantém na pobreza as massas excluídas do suntuoso banquete patrimonialista da Riqueza Pública de que se locupletam os milhões de políticos, burocratas, amigos e familiares. A retórica é progressista, o desígnio secreto é o atraso. Eis em suma o que chama Besançon de “falsificação do Bem”. Como explica o autor, “os dois totalitarismos se colocam como objetivo chegar a uma sociedade perfeita, destruindo os elementos negativos que a ela se opõem. Pretendem ser filantrópicos, cultivando um ideal que suscitou adesões entusiásticas e atos heróicos. Mas o que os aproxima é que ambos se dão o direito – e mesmo o dever – de matar, e o fazem com métodos semelhantes e em escala absolutamente inédita na história”.

A segunda tese de Besançon é que a memória histórica não os tratou de forma igual. Enquanto o nazismo foi destruído e se tornou objeto de uma execração universal, que não diminui com o tempo - o comunismo ao contrário, “em que pese inclusive sua queda, se beneficia de uma amnésia e anistia que se valem do consentimento quase unânime, não apenas de seus partidários, pois eles ainda existem, como também de seus inimigos mais determinados e até mesmo de suas vítimas”. Quando o caixão de Drácula se abre, como por exemplo pela publicação de O Livro Negro do Comunismo, o escândalo dura pouco e o caixão se fecha, sem que sejam as cifras seriamente contestada. A diferenciação no tratamento dos dois fenômenos criminosos é realmente admirável. Há poucos dias recebi, por exemplo, uma publicação dos Jesuítas de Brasília que dirigem a CNB do PT. Eles descrevem em termos candentes o bombardeio de Hiroshima com o intuito evidente de denunciar “a crueldade do capitalismo americano”. Nenhuma palavra faz referência aos cinco milhões de chineses que foram mortos durante a invasão nipônica, nem tampouco que num único episódio, o massacre de Nanking em fevereiro de 1938, o exército japonês foi responsável pelo dobro de vítimas sofridas nas duas cidades atomizadas em 1945. Nenhuma referência é feita tampouco às centenas de milhares de cristãos assassinados pelos comunistas na China e no Vietnam, depois da subida ao poder dos respectivos “governos populares”. Vide, sobre esse último caso, o livro de Robert Royal “Mártires Católicos do Século XX” (Lisboa 2001). Acontece que principiei a carreira na China, 1941, sendo testemunho direto da brutalidade dos invasores que, não fosse a bomba de Hiroshima, teriam ido ao suicídio coletivo, com ele carregando talvez um milhão de soldados aliados.

Publicado no Jornal da Tarde, 19 de agosto de 2002.

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