terça-feira, 23 de julho de 2013

A nobreza dos ofendidos


Por , julho 11, 2013 3:00 pm
cvggo_peterA inscrição do totem localizado na entrada da cidade de Sorocaba – “Sorocaba é do Nosso Senhor Jesus Cristo” – é significativa sob vários aspectos: político, teológico, histórico, sociológico, psicológico etc. E não à toa tem incomodado ativistas do movimento secular que veem no monumento a expressão de algum tipo de intolerância religiosa – como se estivessem preocupados com os sentimentos religiosos dos sorocabanos e, ao invés disso, nem pretendessem limitar toda forma de religiosidade à vida privada.
A principal tese contra a presença do totem – e de qualquer manifestação pública de símbolos religiosos – fundamenta-se na acusação de que sua presença teria ofendido a consciência de dois estudantes da Faculdade de Direito de Sorocaba (pois lá aprenderam que o estado é laico, mas esqueceram das lições a respeito das origens cristãs tanto da separação entre estado e religião como da tradição jurídica ocidental), a consciência de um “indeterminado número de pessoas” e, por isso, “afronta a liberdade de crença e o princípio constitucional do Estado laico”.
Sendo assim, na “triunfante afirmação” de que “Sorocaba é do Nosso Senhor Jesus Cristo” não estariam presentes o respeito a outras crenças religiosas e, consequentemente, o respeito à laicidade do Estado. Não obstante, essa acusação transmite pelo menos dois grandes equívocos: primeiro, de que no estado laico as manifestações religiosas estariam vetadas à esfera pública e, em decorrência disso, limitadas à vida privada; e, segundo, a noção de que “laico” fundamenta-se na absoluta relação de identidade entre “sociedade civil” e “poder público” (vale lembrar que relacionar a totalidade da ideia de “nação” – por exemplo a afirmação de que o “Brasil é Laico”– à ideia de “estado” não é outra coisa senão a máxima expressão de totalitarismo: “Tudo no Estadonada contra o Estadonada fora do Estado”).
De qualquer maneira, o maior problema recai no critério de que o totem “ofende a consciência de algumas pessoas”. Tal critério não se justifica pelo fato de ser derivado de um dado obtuso de sentimentalismo, cujo acesso imediato se dá tão somente numa consciência pessoal ressentida. Por exemplo, alguém poderia alegar estar ofendido com as cores amarela e vermelha da bandeira do município. Mas se ofender com as cores não seria um exagero? Qual o problema com as cores da bandeira? Ora, se o estado é neutro em matéria de religião, por que não deveria também ser neutro em matéria de cores?
Se toda cor em uma bandeira tem caráter simbólico, alguém poderia alegar não comungar dos valores atribuídos por aquele conjunto específico de símbolos. Na mesma medida em que se sentem ofendidos com a simbólica expressão “Sorocaba é do Nosso Senhor Jesus Cristo”, por que alguém é igualmente obrigado a aceitar os valores atribuídos ao amarelo-ouro (a riqueza, a força e a solidez da fé dos sorocabanos – não por coincidência o totem é amarelo) e ao vermelho (o valor e a coragem dos bandeirantes que partiram de Sorocaba e contribuíram para o progresso do Brasil)? Se o critério da ofensa pessoal vale para um contexto simbólico, então não existe razão para não valer igualmente para outro.
Ademais, um símbolo cultural tem validade porque expressa um bem público não derivado de experiências puramente sentimentais e subjetivas. Pelo contrário, os símbolos emergem da comunhão de experiências conscientes e maduras de participação em uma comunidade histórica. Todo símbolo é, em última instância, expressão da memória de um povo, ou seja, expressa aquele dado fundamental de experiências que caracteriza o vínculo narrativo das pessoas no enredo de uma civilização.
Portanto, a simbólica expressão “Sorocaba é do Nosso Senhor Jesus Cristo” marca o vínculo fundamental da experiência de uma consciência pessoal com a cultura da qual a cidade participa historicamente e não uma confissão religiosa específica. A frase não é a expressão de um determinado “credo”, mas a expressão de um marco civilizatório – no qual, aliás, fundamenta-se a própria origem da separação entre estado e religião. Como reconhece o grande filósofo Franz Rosenzweig: “no mundo cristão, Estado e Igreja se dividiram desde o início. Desde então, a história do mundo cristão vem sendo realizada na conservação dessa separação” (Cf. Estrela da redenção, p. 375).
Em vista disso, não é a partir de uma mera “ofensa pessoal” que se deve questionar a validade de um símbolo já enraizado numa cultura. Esse critério abriria precedentes para se questionar qualquer manifestação cultural. Com efeito, se esse critério fosse legítimo, então nenhuma cidade poderia ostentar qualquer tipo expressão simbólica: bandeiras, brasões, hinos, calendário, arte, arquitetura, tribunais, leis etc, pois tudo isso expressa uma visão de mundo que estaria sempre sujeita a ofender a consciência sentimental de alguém.
Nesse sentido, ao invés de revelar o caráter de preocupação com a pluralidade religiosa, a polêmica a respeito do totem em Sorocaba revela algo muito mais importe: o estado de revolta contra toda comunidade cristã responsável pela trajetória histórica da cidade. Tal revolta põe em significativa evidência a verdadeira face anticristã do movimento secularista, ou seja, o desejo de reduzir a religião cristã à mera experiência da vida privada, portanto anular o seu valor público e histórico.
Por fim, os ofendidos podem não ser cristãos, mas não podem negar serem herdeiros dessa tradição cultural. Podem até conseguir derrubar a expressão do totem como suposto sinal de nobre preocupação, mas jamais poderão apagar o patrimônio histórico que vincula Sorocaba à civilização ocidental e, por isso, ao Nosso Senhor Jesus Cristo.

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