segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Eu, leitor

                                                                                                                  por: Gustavo Nogy

REVISTA FEMININA é mesmo coisa engraçadíssima. No dentista, eu sempre levo “Guerra e Paz”, do Tolstoi. Mas com a “Marie Claire” ali, toda disponível, eu não consigo resistir: escondo o russo na bolsa e vou logo saber o que as mulheres andam pensando sobre mim, ou, mais precisamente, o que elas pensam que eu penso sobre elas. Porque nessas revistas, símbolos máximos da liberação feminina, o que se vê é que elas, no fundo, só queriam mesmo pensar neles e dar a isso o nome de ‘feminismo’. Nós somos mais honestos: revista masculina é para ver mulher pelada. Para atrapalhar, tem os anúncios e as fotos de carros. Abro o penúltimo número e lá está: “99 maneiras de provocar orgasmo no homem”. Eu imediatamente considero que uma única maneira já é mais do que suficiente, nem precisamos assim de tanto estímulo, mas se elas gostam de pensar, fico feliz. Outra matéria: “99 maneiras de atingir o orgasmo”. Aqui a coisa toma uma proporção mais razoável, é bem verdade, mas elas não se dão por satisfeitas, e passam do orgasmo às celulites e estrias, destas para as considerações acerca do que é peso demais ou peso de menos, as viagens para lugares paradisíacos e tediosos, algumas grifes comandadas por homossexuais, uma ou duas entrevistas polêmicas com atores e atrizes e, por fim, num salto epistemológico de fazer inveja a Thomas Kuhn, chegamos à preciosíssima seção “Eu, Leitora”. Ali são tratadas as taras, as esquisitices, as preferências e as peraltices da mulher moderna. Depoimentos do tipo: “Eu, Leitora, transei com um mendigo” (verdade). Outra: “Fiz três abortos e não me arrependo” (idem). “Eu, Leitora, abandonei a profissão de socióloga e me tornei prostituta" (true). Ou: “Deixei de ser prostituta e virei socióloga” (a conferir no próximo número). Ainda: “Me senti atraída pelo Pablo Capilé” (verdade ficcional). E é evidente que a mulher que tenha comprado e lido tal porcaria do começo ao fim é tudo, tudo, rigorosamente tudo, menos leitora de qualquer coisa que preste.



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