domingo, 25 de agosto de 2013

O erro do conservadorismo otimista

 



por:Cristian Derosa

A Rússia tem sido um ponto de divergência entre conservadores diante da aparentemente imprevisível mudança de discurso feita pelo Império Russo. Isso porque o governo de Putin tem manifestado uma defesa das tradições ao implementar reações do governo contra as agendas gayzista e abortista, coisa que castiga o Ocidente há já quase um século. A tendência de muitos conservadores católicos e evangélicos tem sido a de aderir e apoiar o governo russo em sua suposta santa cruzada, apesar de toda a informação disponível sobre o caráter nefasto do Império Russo. Por que então eles continuam a louvar a Rússia?

Não precisamos enumerar aqui a lista de objeções factuais que atestam ou desmentem essa suposta nova Santa Aliança promovida pela Rússia, coisa bem sabida por muitos e desnecessária para compreender o que realmente está por trás do erro de julgamento. Embora os fatos sejam importantes para uma argumentação racional sobre o que vem a ser o Império Russo e os seus objetivos, creio que o problema vai sempre retornar porque ele reside na interpretação daqueles fatos e na compreensão das próprias premissas desses raciocínios. O fato de Vladimir Putin estar sendo chamado de Cristo Pantocrator só confirma o caráter maligno e a confusão das análises apressadas e preguiçosas lidas e ouvidas por ai. Portanto, embora muita confusão se faça nas informações, o buraco está bem mais embaixo.

Já que o otimismo dessas opiniões se baseia numa visão pretensamente cristã, o que realmente interessa aqui é a concepção de Cristianismo que está por trás da fé ou ceticismo na Rússia e creio poder indicar aqui que um otimismo integral em relação a ela não se identifica com uma visão cristã absolutamente.

Qualquer razão utilitária iluminista e ateia pode facilmente chegar à conclusão de que o Cristianismo é bom e preferível à sociedade. O que eles não podem compreender é que o Cristianismo representa muito mais do que isso: é a salvação da alma e a fidelidade à pessoa de Jesus Cristo por meio da participação no Corpo de Cristo. Mas o que vem a ser isso e o que isso tem a ver com o que o país governado pelo Pantocrator russo anda fazendo? Parece-nos mais fácil dizer o que o Cristianismo de fato não é do que nos enveredarmos por definições teológicas e filosóficas já de escasso entendimento a quem optou por uma visão “geopolítica cristã”. Portanto, o único remédio a essas pessoas, depois, é claro, de o entendimento do objetivo histórico e estratégico do Império Russo não ter sido suficiente, é abrir mão do raciocínio utilitarista e conhecer ao menos a própria inépcia em relação ao Cristianismo.

Abstraindo-se a fé, parece haver pouca diferença qualitativa entre as diversas concepções e é ai que está a profunda limitação de uma visão puramente racional. O Corpo de Cristo pode ser facilmente confundido com uma sociedade tolerante, benevolente e onde vigoram socialmente as normas da tradição cristã o que, na visão desses otimistas, bastaria para que uma sociedade fosse chamada de cristã. Essa noção não difere da humanista que deu origem ao socialismo e o fascismo. Afinal, é com base na crença da possibilidade de salvação social que se tem interpretado a política.

Parece óbvio que isso nem é Cristianismo e nem representa uma visão sã da realidade. E o erro reside em confundir aquela participação vivencial com uma mera identificação grupal com base numa doutrina ou no compartilhamento de opiniões concordantes. Esse aparente pequeno erro conduz a monumentais confusões de ordem espiritual e, no que diz respeito à formação daquelas opiniões otimistas, também de ordem epistemológica.

Qualquer iniciante em metodologia científica sabe que a clareza nos conceitos nos quais se pretende trabalhar é essencial para chegar-se a conclusão mais acertada. E quanto mais a definição daqueles conceitos esteja próxima do seu lastro na realidade, melhor ainda para as conclusões. E é de conclusões que vivem as propostas de ação. Mas como se dá a compreensão do fenômeno real para chegar-se à sua definição mais adequada?

Seria necessário fazer algumas perguntas aos opinadores que se aventuram por uma “geopolítica cristã” e conduzi-los a uma anamnese conceitual e individual sobre a definição de seus pressupostos:

Sendo o entendimento do Cristianismo uma das premissas iniciais, já que o julgam a doutrina mais sã e racionalmente preferível ao mundo, qual teria sido o meio de apreensão individual que você tem do que seja o Cristianismo e qual o fator que o identifica? Seria o conhecimento da doutrina? Os debates doutrinais da Idade Média? O conhecimento de fatos históricos que atestam que os cristãos estiveram certos na maior parte da história humana? A mera existência quantitativa de milagres e santos católicos? A beleza das catedrais? A verdade contida nas palavras do Evangelho? A beleza litúrgica dos ritos? A preferência pelas normas de conduta social? A moral sexual cristã?

Esses pontos podem tê-lo servido de trampolim para o Cristianismo. Mas de modo algum garantem o conhecimento do que é a fé cristã, já que ela se resume na confiança na Pessoa de Cristo e, depois, na participação do corpo dEle da qual depende a consciência das proporções reais a que estamos sujeitos no mundo, seja espiritual ou histórico. A realidade espiritual ou total é o que abarca o mundo histórico e não o contrário. Nem se tratam de dimensões paralelas e interdependentes.

Assim, como nos mostra Louis Lavelle, para quem os atos humanos decorrem da existência e presença de um Puro Ato que o possibilita e sustenta, a história humana é sustentada por essa outra esfera do real que só pode ser acessada por meio da vivência nela. Fé cristã não é a mera afirmação de autoridade mediante a ignorância de algo para além do mundo. Não. É a opção racional que aceita fazer parte na modificação de si, cuja compreensão só existe ao ser vivida. Um conceito de Cristianismo, como vemos, não é como outro qualquer; não pode ser tratado como o de mais-valia, consciência de classe, ideologia, concepções da história ou mesmo da doutrina cristã.

Embora o opinador creia que não necessite do esforço de conversão para formar uma opinião sobre os rumos da civilização cristã, vai sempre estar aquém do que pode compreender. Se a fé influencia na motivação das ações humanas e na sua compreensão do mundo, como pode alguém abster-se dela para julgá-la à luz de uma racionalidade que se pretende externa e superior?

Quero dizer com isso que antes de raciocinar com o conceito de Cristianismo como premissa para ações no mundo, é necessário aproximar-se dele não como um pesquisador ou um outro papel social, mas como ser real, não somente com o cérebro, mas como coração. Um coração aberto não é uma oposição à mente sã, mas condição dela. Coração aqui entendido como centro e unidade e não como fonte de sentimentalismos tal a concepção usualmente burra.

Decorrente do entendimento de Cristianismo vem o conceito de Bem. Como conhecê-lo sem reconhecê-lo na prática? O que nos leva a perguntar: que tipo de definição de bem pode vir de quem não o pratica e nunca o praticou? É que fingimos não saber de que se trata.

Embora pessoalmente e na prática temos a capacidade de sermos bons, a racionalidade moderna nos ensinou a ter um distanciamento dos objetos para o poder analisá-los melhor, o que só é verdade em termos metodológicos quando o objeto exige, o que não é o caso do Bem ou do Cristianismo de forma alguma.

A dificuldade de explicar o que é o Cristianismo faz com que invariavelmente optemos por dizer o que ele não é. Isso pode ser quase inacessível para quem esteja imerso na racionalidade moderna, cuja única analogia possível sobre o Cristianismo ou o Bem resume-se ao conceito de utilidade.

Um outro problema que surge entre os adoradores da Rússia, e também outros tipos de conservadores católicos, é o da moral sexual, grande tabu que se mantém como maior preocupação em alguns casos. Alguns desses conservadores confundem cristianismo com um código de rigorosa moral sexual. Acham que uma sociedade oprimida por regras sociais é uma sociedade cristã.

Como explica Olavo de Carvalho, essa preocupação só indica que a moralidade sexual é o ponto mais importante e mais difícil para eles, o que os faz confundir problemas pessoais com os problemas do mundo. Se fossem viver na Rússia que tanto almejam, não durariam uma semana.

0 comentários :