quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Caos, barbárie e vaidades: algumas notas


ESCRITO POR SAULO DE TARSO MANRIQUEZ | 03 FEVEREIRO 2014 
ARTIGOS - CULTURA

Caos

Em 2010, contando com apoios mais ou menos velados das demais forças de esquerda do país, o PT usou a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo como um trunfo para consolidar a eleição da Sra. Dilma. Passados três anos, a esquerda xucra, que outrora, por assim dizer, endossou o projeto de poder petista, resolveu lutar "contra tudo que está aí", inclusive contra a Copa. Assim, em junho de 2013, a esquerda mais ogra (usa-se aqui o “mais” porque o lulo-petismo também é ogro) decidiu alçar vôo próprio e assumir o protagonismo na marcha revolucionária e logo botou suas crias nas ruas para tocar o terror. 

Neste ano de 2014, a população brasileira será convocada novamente a ir às ruas, só que agora talvez com um foco mais específico: a Copa.

A realização da Copa do Mundo no Brasil mostra-se cada vez mais nociva à Pátria: a soberania nacional e a livre concorrência estão sendo novamente desrespeitadas (v.g. Lei Geral da Copa); a comedeira de dinheiro público e o superfaturamento de obras ficam cada vez mais evidentes; o flagrante desvio de finalidade por parte da Administração Pública (sim, pois saquear o erário para ter um retorno pífio não significa atender o interesse público) esfola a população sofrida que carece dos serviços públicos mais elementares. Poucos são os que efetivamente acreditam que a Copa será ótima para o Brasil.
A esquerda xucra sabe que a indignação com a Copa cresce a cada dia, provavelmente irá encampar essa indignação e tentará conduzir o processo todo. Como isso tudo ocorrerá ainda é algo incerto, mas pode-se dizer que serão empreendidos esforços para dar ares de “apartidarismo” e “espontaneidade” às manifestações.
Prezados leitores, provavelmente vocês serão convocados. Quando isso acontecer, façam a seguinte pergunta: se as forças que agora gritam “Não vai ter Copa!” eram tão contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, por qual razão não protestaram antes, quando o Brasil ainda era mero candidato a ser país sede?
Portanto, meus amigos, exorto-os a tomarem cuidado para que a revolta que sentimos (sim, EU estou com vocês) com o descalabro administrativo da realização desse grande evento futebolístico em nosso país não seja usado para legitimar uma nova onda de “#vemprarua” e quiçá uma convulsão social semelhante a uma guerra civil.
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"Serralheiro de 55 anos perdeu o veículo que usava em seu trabalho". Parabéns a todos vocês, idiotas úteis, que apoiaram o "#vemprarua" e capricharam no discurso para legitimar as ações das hordas revolucionárias. Vocês criaram um monstro que daqui em diante irá atormentar cada vez mais os brasileiros. 

Conheço juristas progressistas aqui do Paraná que, de forma entusiástica, colocaram fotos do “#vemprarua” curitibano de junho de 2013 como fotos de capa em seus perfis no Facebook. Convenhamos, as fotos já estão desatualizadas. Sugiro a esses juristas que alterem as fotos de capa de seus perfis por fotos das manifestações de 2014. Sabe como é: ano novo, foto nova. Por que não colocar a foto de um fusca em chamas? Da hora, não? É sucesso garantido no meio acadêmico progressista paranaense.  


Barbárie
Recentemente o Sr. Aleksandr Dugin soltou a seguinte reflexão em seu perfil do Facebook:

Responsibility to kill
We could freely use animal food only if we agree to eat human flesh - in any form symbolically or directly. There are African tribes in West-Atlantic shore who breed human slaves to eat them. I find it perfectly reasonable and fully responsible. If we kill animals by our hands, contemplate them suffering and dying, cut off their skin and separate bones, touching their inner organs -- or at least if we vividly imagine that act each time when we eat our meal, we are completely sane and we could proceed eventually applying - in wars -- the same attitude toward human. In the war it is essential to take responsibility of act of killing. The very similar responsibility is connected with the act of eating animal food. But animal signifies sentient, that presupposes suffering. Let us do it with full responsibility -- eating as well as fighting, in one word -- the responsibility of killing. Or abstain. It is free choice.


Olhem só que belezinha! Doravante, fiquem sabendo os leitores, a precondição (“We could freely use animal food only if we agree to eat human flesh”) para se poder comer uma parrillada ou aquela deliciosa carne de panela com polenta é aceitar devorar, também, quem sabe, a sua vizinha ou seu tio.

Não bastasse o Sr. Aleksandr Dugin defender a aniquilação do Ocidente, agora ele propõe um genocídio “responsável” e, por que não dizer, “sustentável”. Tal discurso não é um simples delírio pró-canibalismo; faz parte de uma cosmovisão atrelada a um projeto político e militar revolucionário. Em termos mais claros, Dugin está recomendando que as hostes eurasianas comam a carne daqueles que irão sucumbir na "guerra santa" contra o "mundo moderno". Se isso não é satanismo eu não sei mais o que é.

Essa reflexão demoníaca de Aleksandr Dugin talvez desencoraje alguns de seus seguidores a continuarem defendendo a causa e a cosmovisão eurasiana, mas, não tenham dúvidas: em algum lugar, talvez até pertinho de vocês, o canibalismo pós-guerra será considerado uma prática "tradicional", “responsável” e, portanto, "bela e moral".

E pensar que o Dugin é considerado o porta-voz da "verdadeira ortodoxia" por alguns cristãos "ortodoxos".

Vaidades
Surgiu no meio conservador afetadinho um novo critério para julgar se um sujeito gosta ou não de estudar. Consiste na verificação do tipo das postagens que uma pessoa costuma fazer. Assim, quem faz e posta memes é rotulado de “militante tosco” que “não gosta de estudar” e “age como esquerdista”. Doravante, fica subentendido que aqueles que divulgam memes com frases de pensadores conservadores ou memes com humor conservador são pessoas bobas que não devem ser consideradas interlocutoras. Intelectuais de verdade, fiquem sabendo os leitores, são aqueles que comunicam ao público que estão estudando algum tema ou que estão lendo determinada obra que acabaram de comprar. Em linhas gerais esse é o critério. 

Estou até pensando em escrever um artigo contra os memes só para simular erudição...

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Enquanto alguns conservadores e liberais - direta ou indiretamente, voluntária ou involuntariamente – acabam por promover, por meio de uma aproximação respeitosa e de um diálogo sincero, uma união contra a marcha totalitária que avança sobre a Pátria, outros, com um ar solene e blasé, propõem a desunião.
Aqueles que propõem a desunião pertencem a grupinhos que costumam não reconhecer como interlocutoras as pessoas que estão fora de seus grupos e as pessoas ligadas outros núcleos de estudo e de ação. Para identificá-los no meio virtual basta perceber o seguinte: a) eles praticamente só promovem o próprio grupo; b) artigos e páginas “de fora” costumam não ser divulgados por eles; c) eles não costumam apoiar os trabalhos e os esforços alheios, mesmo quando são bons.  
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Outra nova moda no meio conservador - se é que se pode chamar de nova e de moda - é a ostentação de superioridade e o boicote às iniciativas de cunho mais prático.
Doravante, para que se possa ser um "verdadeiro conservador" é preciso ter um ar blasé e viver pontificando que o agir no mundo é coisa de gente "que não quer estudar". O pressuposto da vez é o de que aquele que faz algo concreto não é estudioso.
Os pretensos intelectuais do Facebook parecem acreditar que são verdadeiros brâmanes tupiniquins. Quem vê um falando pensa que está diante de alguém cuja formação intelectual está pronta e acabada. Só que não. Quase todos estão em formação e, ao que me consta, ainda não produziram nenhuma obra da mesma grandeza que imaginam ter. Se fossem brâmanes de verdade saberiam reconhecer as vocações e os ânimos que movem as outras pessoas.
É certo que existem militantes bobos, precipitados, arrogantes, oportunistas e avessos ao conhecimento, mas é errado imaginar que todos os que metem a mão na massa são dessa estirpe.
Aquele que não tem vocação para o jogo de poder - seja como protagonista ou como coadjuvante - deve se colocar no devido lugar e começar a respeitar aquele tem essa vocação. Por outro lado, aquele que gosta da "militância conservadora" não deve se apresentar como um intelectual, não deve ir além das chinelas, não deve desprezar a atividade intelectual.
A vida intelectual e a vontade de agir não são nem necessariamente opções excludentes entre si e nem necessariamente complementares. A vida nos oferece mais possibilidades do que imaginam nossos intelectuais virtuais.
Que cada um aprenda reconhecer seu caminho e sua função no atual estado de coisas.

link da postagem: www.midiasemmascara.org


Saulo de Tarso Manriquez é mestre em Direito pela PUC-PR.


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